A Eurovisão está a morrer e ninguém a pode salvar

A Eurovisão está a morrer e ninguém a pode salvar

A Eurovisão está a morrer e ninguém a pode salvar

Quando digo que sou fã da Eurovisão, não creio que alguém perceba o que isso significa. Para mim a Eurovisão não termina quando é encontrada a música vencedora, dura um ano inteiro.No passado sábado, depois daquilo que tem vindo a acontecer no concurso, o que eu mais queria era que Israel vencesse o concurso, para ver se ele acabava de vez. O que está em questão não são opiniões políticas, mas sim a dualidade de critérios que a União Europeia de Radiodifusão, responsável pela organização do concurso, usa.Em 2022, quando a Rússia invadiu Ucrânia, a Rússia foi expulsa de vários eventos internacionais, incluindo a Eurovisão. Não era a primeira vez que proibições políticas levavam a expulsões do concurso. Em 2009, a Geórgia tentou levar ao concurso uma música chamada “We don’t wanna put in”. Ao disfarçar, num título aparentemente normal, uma mensagem política, o país acabou por ser afastado do certame.Porque é que Israel não é, então, expulso do concurso? A justificação dada é sempre a de que a Eurovisão não é um concurso político. Se assim é, porque é que a Rússia não está a competir? A explicação é mais simples e resume-se a dinheiro. O principal patrocinador do concurso é a Moroccanoil, marca israelita ligada à Eurovisão desde 2020. A solução seria arranjar outro patrocinador, mas conseguir que uma marca se associe ao concurso da forma que ele está não pode ser fácil, mesmo com audiências perto dos 200 milhões.Mas vejamos as implicações reais de manter um país em guerra no concurso. Em 2024 começaram os problemas reais, culminando na desqualificação da música dos Países Baixos, por alegadamente o seu artista ter sido agressivo contra uma operadora de câmara. Antes disso, o mesmo artista tinha-se manifestado ativamente contra a participação de Israel. Meses depois, o caso contra Joost Klein, o holandês, foi arquivado por não haver qualquer prova da suposta agressão.Em 2025 acabaram-se as conferências de imprensa dos artistas, as acreditações de imprensa foram reduzidas e jornalistas que no ano anterior tinham criticado as decisões tomadas pela organização foram afastados. No final, Israel acabou a ganhar o televoto e no 2.º lugar da classificação geral.Chegados a 2026, há cinco países que decidem sair do concurso, mas há três regressos: Bulgária, Moldava e Roménia, países que terão saído do concurso devido a problemas financeiros. A emissora búlgara chegou a confirmar em agosto que não tinha qualquer intenção de regressar à competição. Na final nacional romena viram-se diversas vezes anúncios ao patrocinador principal do evento: a Morrocanoil. Ninguém pode afirmar com certezas que o regresso dos três países foi financiado por Israel, mas é tudo muito conveniente.Na semana da Eurovisão, o New York Times publicou um artigo em que prova que Israel manipulou o voto do público em 2025, mas a organização da Eurovisão escolheu fechar os olhos. No final, a Bulgária foi a grande vencedora da noite, ganhando os votos do público e do júri. Na semifinal, tinha ficado apenas no 5.º lugar do júri, o que gerou já alguns comentários.Curiosamente, os primeiros quatro classificados do televoto foram, por ordem, Bulgária, Roménia, Israel e Moldava, ou seja, o país que se comprovou ter comprado votos em 2025 e os três países que regressaram este ano ao concurso. É estranho, mas não consigo entrar nas teorias da conspiração, porque os três países regressados deram um excelente espetáculo em palco e tinham argumentos mais que suficientes para os lugares que tiveram.A Eurovisão começou por ser um concurso onde os países mostravam a sua música e cultura e, para alguns, continua a ser um importante palco para tal. Basta-nos olhar para este ano para perceber a importância que a Eurovisão tem, por exemplo, para um país como a Bulgária, que ganha pela primeira vez o concurso e vai poder sediá-lo no próximo ano, atraindo milhares de pessoas (e euros). Ou para a Moldava, que muitas vezes nos esquecemos que existe, e que levou uma música com raízes tradicionais, promovendo o seu país e unindo os seus cidadãos à frente de ecrãs gigantes. Isto para nem mencionar a rampa de lançamento que pode ser para os artistas.A Eurovisão, como um dia a conhecemos, morreu no dia em que os Países Baixos foram desqualificados, em 2024, e mantém-se alimentada por um suporte de vida que não vai durar muito mais.

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