O futuro começa nas plantas
A 18 de maio celebra-se o Dia do Fascínio das Plantas, uma efeméride internacional que visa sensibilizar para a importância das plantas e do seu estudo. Na mesma semana, espera-se que o Parlamento Europeu formalize a aprovação da utilização das Novas Técnicas Genómicas de categoria 1 (NTG-1) para o melhoramento das plantas cultivadas. Há muito que todos os interessados no melhoramento de plantas na União Europeia esperam por este dia. A coincidência dos dois momentos traz-nos um paradoxo: como pode a ciência de plantas ser tão avançada e ao mesmo tempo tão invisível?As plantas produzem o oxigénio que respiramos, muitos dos medicamentos que precisamos, fibras e outras matérias-primas e, direta ou indiretamente, são a base da nossa alimentação. As variedades de plantas que comemos há muito que diferem das espécies encontradas na natureza e são o resultado de séculos de seleção e melhoramentos sucessivos introduzidos pelo ser humano de forma mais ou menos dirigida.A necessidade de aumentar a produção de alimentos num contexto de pressão demográfica, alterações climáticas, emergência de novas pragas e doenças, e necessidade de reduzir agroquímicos, requer novas variedades de plantas, mais produtivas e mais resistentes, a uma velocidade incompatível com as ferramentas tradicionais de melhoramento de plantas.Nos anos 60, as novas técnicas agrícolas da revolução verde permitiram aumentar a produtividade das plantas, mas esse aumento está a atingir o seu limite. Para garantir a alimentação de todos, precisamos de uma segunda revolução verde. Hoje temos o conhecimento para aumentar a produtividade agrícola num contexto de alterações climáticas, mas a regulamentação europeia não tem permitido a sua aplicação. Isso pode mudar com a aprovação das NTG-1.As novas tecnologias genómicas surgiram na última década em resultado da investigação dita fundamental e não existiam quando, em 2001, foi adotada a legislação sobre organismos geneticamente modificados (OGM), estando por isso abrangidas pelas mesmas regras. Ao contrário do que acontece nos OGM clássicos, as novas técnicas permitem a edição precisa de genes já presentes na planta sem adição de ADN externo.Na prática, a nova regulamentação reflete a evidência científica de que plantas melhoradas através da NTG-1 são equiparáveis, e por isso tão seguras, como as variedades obtidas por melhoramento convencional. As alterações nas plantas NTG-1 não são diferentes daquelas que ocorrem naturalmente no meio ambiente ou no contexto da agricultura tradicional.
Para a maioria de nós, as plantas são invisíveis. Esta invisibilidade contamina também a investigação em plantas, que é cronicamente subfinanciada face à investigação animal ou biomédica. No entanto, estudar as plantas e utilizar esse conhecimento para as melhorar é urgente e essencial para a nossa sustentabilidade.É urgente face à crise climática: culturas tolerantes à seca e ao calor ou resistentes a pragas e doenças são uma necessidade, não um luxo. É urgente face ao risco da segurança alimentar: nove mil milhões de pessoas em 2050 exigem produtividade com menos recursos e menor pegada ambiental. É urgente face ao risco de perda de biodiversidade: compreender e melhorar as plantas cultivadas e selvagens é condição para conservá-las. É urgente face à saúde: das plantas vêm antibióticos, analgésicos, anti-inflamatórios, anticancerígenos e ainda há uma imensidão por explorar. E é por isso que celebrar o fascínio das plantas é, mais do que uma necessidade, um dever.As NTG-1 não são uma panaceia que resolve todos esses desafios, mas a aprovação da sua utilização na agricultura é um marco importante, pois mostra que vale a pena apostar na investigação científica na área de plantas. Tal como uma planta, a investigação precisa de tempo e de energia para dar frutos. Precisamos de garantir mais investimento público em investigação na área das plantas: tanto a mais aplicada, como a de base que nos permite encontrar aplicações melhores e mais seguras, como aconteceu com as NTG-1. As universidades com investigação e ensino na área das plantas merecem mais atenção política e mediática.Em Portugal, a ciência das plantas avança, mas o fascínio tem de vir antes. Sem fascínio, não há curiosidade. Sem curiosidade, não há vontade. Sem vontade, não há descobertas. E sem descobertas, não há futuro. O Dia do Fascínio das Plantas é um convite, a nova regulamentação europeia é uma abertura. Saibamos aproveitá-los.Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográficoAna Sanchez (investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa)Isabel Abreu (investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa)Margarida Oliveira (investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da da Universidade Nova de Lisboa)Marta Santos (comunicadora de ciência do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da da Universidade Nova de Lisboa)Nelson Saibo (investigador do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da da Universidade Nova de Lisboa)



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