Sem Portugal não haveria Brasil

Sem Portugal não haveria Brasil

Sem Portugal não haveria Brasil

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É possível que, em algum mundo paralelo, os portugueses nunca tenham colonizado as terras da América do Sul, talvez até nunca aqui tenham chegado e, desse modo, nunca tenha vindo a existir o Brasil. Nessas nada lusitanas terras de Tupinambá, as coisas certamente são diferentes. Não sei se melhores ou piores, mas diferentes. E, claro, não se fala por lá (ou seria por cá?) português.Pensamentos assim me assaltam de vez em quando. Este surgiu por conta da recente ida a México da presidenta da Comunidade Autônoma de Madrid, a senhora Isabel Ayuso. Foi uma polêmica visita ao México, entre outras coisas, para participar em uma homenagem a Hernán Cortés (1485 – 1547), notável conquistador espanhol considerado o principal responsável por subjugar e destruir o Império Azteca.Triste carma deve ter trazido esse senhor para si, não é mesmo? Bem, para a ultradireita tanto a espanhola quanto a mexicana o que houve foi, não uma colonização violenta, mas um processo de mestiçagem que levou a superior civilização europeia aos perigosos e inferiores indígenas, trazendo-lhes muito bem. A descrição do ocorrido é breve, mas é nesse contexto que surge um pensamento célebre de Ayuso: “Sem Espanha, não teria havido o México”.Esse pensamento surge com frequência na fala de alguns ao se falar de colonização. De certo modo, talvez ele não esteja totalmente equivocado. É que razão tinha Drummond ao afirmar que depois de ver a pedra do meio do caminho nunca mais ele foi o mesmo, nem o seu olhar.A questão não está no que se vê, um sanguinário guerreiro ou uma pedra do chão, mas no fato de que é sempre na interação com o mundo que nós somos quem somos. Em outras palavras, depois que meu paciente leitor terminar de ler este pequeno texto, ele não será o mesmo. Será talvez aquele que acha que perdeu o seu tempo lendo isto daqui ou alguém que acha que sim senhor, até que foi bom pensar nisso. De nenhum modo, será uma grande mudança, é fato, mas uma coisa, contudo, é certa: não será o mesmo.Tanto em Portugal como no Brasil também se ouvem os mais diferentes pontos de vista sobre a colonização portuguesa na América. Há os que queiram de volta o nosso ouro e há os que considerem que os brasileiros devam todos voltar para a sua terra. Uns e outros, mais por emoções do que pela razão, simplificam os fatos e se perdem em palavras, chegando muitas vezes a ofender-se uns aos outros.São curiosas as palavras: elas não têm peso, saem céleres no gesto da mão ou na respiração da boca. Porém uma vez tendo ganho o mundo, ganham também vida própria e constroem sentidos para além daqueles que lhes propusemos originalmente. O nervosismo sentido naquele momento em algum momento passa, mas o que foi dito ecoa pelo ar e, às vezes, por muito tempo. Esses sentidos construídos se fazem na leveza que as constitui. Ingênuas talvez, as palavras se modelam no tempo e no espaço em que são compreendidas e interpretadas. Por isso, devem ser cuidadosamente pensadas antes de serem ditas.Voltemos à colonização brasileira. Ela é uma realidade construída por uma variada gama de agentes: pessoas com poder que representavam o Estado de Portugal, pessoas que vinham fugidas da fome e da miséria a tentar a vida por cá, religiosos que acreditavam na necessidade de salvar almas a qualquer custo, além de comerciantes, agenciadores, traficantes e muitos outros. Cada um com as suas motivações e com uma visão de mundo própria da realidade em que estavam inseridos e que lhes dava forma. Motivações, modos de ver o mundo, desejo de sobrevivência, egoísmo, ganância, tudo se misturava enquanto a palavra lavrava caminhos para justificar as ações.Ninguém fugiu do seu inexorável destino de construir a grande nação brasileira. Mas, sejamos honestos, como bem nos mostra Mário Quintana, a frase é vazia: uma barata morta por uma chinelada tampouco fugiu do seu inexorável destino. Indivíduos ou sociedades somos formados de inter-relações que se constroem no fio da história. Na maior parte das vezes, não temos condições de escolher a atitude do outro. Na verdade, sequer as nossas próprias atitudes são totalmente escolhidas por nós.A psicologia tem explicado amplamente esses fatos que fazem com que nossas ações sejam atravessadas por ideologias, valores, modos de ver o mundo, impressões e outras coisas que nos constituem e fragmentam para além daquilo que damos conta de perceber.Então, sim, temos de admitir que há muitos erros no processo de colonização da América, seja a portuguesa, seja a espanhola. Mesmo no contexto da época, muitas coisas escapavam a uma análise ética e alimentavam-se de pura ambição. Esse modo de agir, porém, não é uma característica de um momento histórico apenas: ainda hoje é bem comum e muitos a atribuem, inclusive, por exemplo, à visita que Ayuso fez ao México.Ambições políticas e econômicas justificam, por vezes, um discurso fantasiado de retorno às origens ou de resgate da verdade, seja de um lado ou do outro dos espectros políticos. O olhar atento, contudo, aprendeu a desconfiar de soluções fáceis. Relacionamos ideias, atribuímos valores, chegamos a conclusões. Buscamos compreender para ver futuros.Sem os portugueses não haveria o Brasil de hoje não é o vaticínio que assinala um grande feito histórico, mas um recorte enviesado de uma realidade mais complexa. Sem a Guerra do Paraguai tampouco haveria o Brasil de hoje e nem por isso, apesar do contexto histórico, eu acho que o Brasil não tenha errado e muito nesse acontecimento. Mas também é verdade que aconteceu, está feito. Se a barata de que Quintana fala tivesse sobrevivido, ela bem poderia ter aprendido uma lição da chinelada que levou. Poderia, porque nem as lições da vida são algo garantido. Vejam bem que, ao que me parece, Ayuso pouco aprendeu da história da Espanha e do México. Mas está aí a oportunidade de usar as palavras para refletir e construir presentes.Com cerca de um milhão de brasileiros em Portugal, também é verdade que, sem o Brasil, não há hoje Portugal. Mas isso tampouco é, em si, um elogio. O que define se será bom ou mau é o que fazemos com as relações que vamos mantendo com os outros, aquilo que aprendemos do passado e que construímos para o futuro. Dessa perspectiva, não consigo saber o que teria sido se Portugal não tivesse colonizado o Brasil, mas posso esparançar o que essa relação Brasil-Portugal pode de bom oferecer para todos.
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