Inteligência Artificial nas eleições: o problema não é o <em>deepfake</em>, é o cansaço

Inteligência Artificial nas eleições: o problema não é o <em>deepfake</em>, é o cansaço

Inteligência Artificial nas eleições: o problema não é o <em>deepfake</em>, é o cansaço

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Estamos próximos a mais uma disputa eleitoral no Brasil. Em aproximadamente cinco meses, iremos às urnas para decidir o cargo mais importante do país: a Presidência da República. E, antes do resultado, temos uma longa campanha eleitoral para analisar.Durante muito tempo, as campanhas dependeram de grandes estruturas para serem populares. Comícios lotados, jingles repetidos à exaustão, militância nas ruas, programas de televisão cuidadosamente ensaiados. A política sempre entendeu o valor da sensação de adesão coletiva. O que muda agora é a escala, a velocidade e o custo dessa fabricação.Com a chegada da inteligência artificial, inaugura-se uma nova etapa da disputa eleitoral: aquela em que o espontâneo se torna impossível de distinguir do estrategicamente produzido. Não se trata apenas de deepfakes, e talvez esse seja o ponto mais importante.O imaginário popular ainda associa os riscos da IA política a vídeos falsos ou áudios manipulados espalhados em grupos de mensagens. Esses casos preocupam, mas o fenômeno transformador é mais silencioso: a nova propaganda política talvez não tente mais convencer. Ela tenta cansar.Hoje, já é possível produzir, em escala industrial, comentários automáticos, perfis artificiais, respostas emocionais adaptadas para públicos específicos e uma quantidade praticamente infinita de conteúdo político. Não é necessário criar uma mentira perfeita. Basta ocupar espaço suficiente para tornar impossível distinguir o que surgiu organicamente do que foi desenhado para parecer orgânico.Uma enxurrada de comentários aparentemente espontâneos pode não refletir mobilização popular, mas automação narrativa. Até a indignação política começa a correr o risco de se tornar produto sintético otimizado por algoritmo.Existe algo particularmente delicado nisso tudo: a erosão da confiança coletiva. Quando tudo pode ser fabricado, até manifestações autênticas passam a parecer suspeitas. Mobilizações legítimas parecem marketing. Pessoas comuns soam como bots. A consequência não é apenas desinformação, é fadiga social. E sociedades cansadas se tornam mais vulneráveis.Talvez, estejamos entrando na primeira eleição brasileira em que a disputa principal não será apenas por votos, mas pela definição do que parece socialmente legítimo dentro do feed. Não vence necessariamente quem apresenta o melhor projeto político, mas quem consegue produzir sensação constante de presença, adesão e inevitabilidade. A campanha deixa de funcionar como convencimento racional e passa a operar como ambiência.Nesse cenário, a transparência sobre o uso de IA deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser tema democrático. A IA não criou a manipulação política, a propaganda sempre existiu. O que ela fez foi industrializar a capacidade de produzir percepção social.Será necessário reaprender a desacelerar diante do conteúdo político: desconfiar daquilo que provoca reação emocional imediata demais, evitar compartilhar sem contexto verificável, diversificar fontes para não habitar apenas ecossistemas que reforçam nossas próprias crenças, observar menos o volume de engajamento e mais a qualidade da informação.E talvez esse seja o verdadeiro desafio das próximas eleições: não identificar apenas o que é falso, mas preservar nossa capacidade de reconhecer o que ainda é humano, espontâneo e real.
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