O que aconteceu no Reino Unido não vai ficar no Reino Unido
A derrocada eleitoral do Partido Trabalhista nas eleições locais pode ser lida como reflexo da incapacidade de Keir Starmer como primeiro-ministro, de circunstâncias excecionais da política britânica ou de uma cultura política muito particular que distingue a ilha.É verdade que um sistema maioritário puro, no qual o partido mais votado conquista com facilidade muitos mandatos (os trabalhistas obtiveram 34% dos votos nas últimas legislativas, o que se traduziu em 62% dos mandatos); uma tradição parlamentar arreigada, que tornou possível seis primeiros-ministros em dez anos; e tensões económicas e sociais singulares, que se materializaram no Brexit e que entretanto se intensificaram com a saída da União Europeia, fazem da política do Reino Unido um caso excecional.Mas, visto à distância, a excecionalidade britânica termina aí. O que aconteceu no Reino Unido nesta semana assenta nas mesmas tendências em curso em toda a Europa, pelo que é apenas uma questão de tempo até que estes ventos de mudança atravessem o Canal da Mancha.Há uma lei de ferro da política dos nossos dias: os partidos no poder são impopulares e os primeiros-ministros percecionados como incompetentes. Mas, ao contrário do que acontecia no passado, a impopularidade de quem governa não se traduz numa alternância simples, que favorece o centro-direita quando é o centro-esquerda que governa ou vice-versa. A marca mais impressiva destas eleições é a derrocada do bipartidarismo britânico, num sistema eleitoral desenhado para favorecer a governabilidade e a estabilidade.
Há uma lei de ferro da política dos nossos dias: os partidos no poder são impopulares e os primeiros-ministros percecionados como incompetentes
O Reino Unido é, agora, mais um país politicamente fragmentado, com uma realidade multipartidária em que nenhum partido se impõe. Os cinco partidos com expressão nacional tiveram votações entre os perto de 30% do Reform do inapresentável Farage e os cerca de 15% dos Verdes, Liberais e Trabalhistas, com os Conservadores nos 20%. Estas votações tornam as condições de governabilidade praticamente inexistentes e, acima de tudo, refletem uma transformação profunda das bases sociais do voto: nas zonas urbanas, onde vivem os ganhadores da globalização, os partidos tradicionais e as suas derivações pós-materialistas resistem; nas periferias desindustrializadas e em perda económica, o voto insurgente nos populistas ganha tração. Tudo cruzado pelo crescimento dos nacionalistas em Gales e a sua resistência na Escócia.O que tem consequências: o espaço de compromisso é, no essencial, assente na resistência à liderança dos partidos populistas de direita, que vencendo são ainda incapazes de alcançar os votos suficientes para governar. Seja o Reform no Reino Unido, o RN em França ou o Chega por cá.Podia ser uma excecionalidade britânica, mas, um pouco por toda a Europa, de cada vez que é chamado a votar, o eleitorado dá conta de que deseja uma mudança — desejo que coexiste com a ausência de uma ideia clara e coerente sobre a sua direção, enquanto as bases sociais que tornariam as condições de exercício do poder sustentáveis estão em acelerada erosão.Ora, se nem num sistema eleitoral maioritário, com uma tradição arreigada de bipartidarismo e assente num regime parlamentarista sólido, o futuro é auspicioso, imaginem qual será a realidade daqui a um par de anos, com governos obrigados a aumentar a despesa com a Defesa, num quadro de inflação e onde a margem de manobra orçamental para o Estado Social e para o investimento será curta. O que vimos nesta semana no Reino Unido tornar-se-á uma realidade europeia, mudarão apenas os protagonistas.



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