Uma graça chamada Joana
Não sei bem onde vive, sei apenas que mora acima de mim e que, por vezes, partilhamos o elevador na descida. A sua beleza ruiva faz-me pensar nas pinturas de Rubens, numa das três Graças, como se tivesse saído da moldura para comungar, por instantes, com a mais comum das mortais: eu. Nunca trocámos mais do que duas ou três palavras e, no entanto, a sua presença impõe-se durante dias quando calha vermo-nos por meros segundos.Ontem voltou a acontecer. Entrei no elevador e ela já lá estava, com a graça incomum de quem habita um vestido verde-garrafa, comprido até aos tornozelos. O cabelo, longo e ondulado, vinha apanhado de um dos lados por um travessão antigo; as sandálias romanas, gastas pelo uso, deixavam entrever unhas cuidadas, pintadas de cor-de-rosa. E, de repente, o elevador cheirava a alfazema, ao sul de França. Ontem aconteceu também que o carteiro nos apanhou à saída do prédio e disse, em voz alta, com a familiaridade de quem a conhece desde a infância:— Esta é para si, menina Joana.Fixei então o seu nome. Tinha agora um nome para aquele rosto salpicado de sardas por algum Pollock da natureza. Não posso dizer que gosto dela, porque não nos conhecemos. Mas será preciso conhecer para gostar?Eu não conheço as peónias nem o mar. Nunca bebemos um café juntos, nunca trocámos uma palavra. Não conheço a chuva nem Deus. Talvez nem conheça aqueles que penso conhecer e amar. E, ainda assim, é inequívoco o meu gostar, porque talvez o nosso gostar não dependa do outro, mas apenas de nós.Sei que gosto da Joana que conheço sem conhecer. Quero lá saber se ela não é aquilo que vejo e sinto. Sei apenas que há uma graça em todas as coisas que amamos sem esperar retorno.



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