Entre o violoncelo e a serralheria, capixaba constrói carreira artística em Portugal
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O capixaba Estevão Baptista mora em Braga, no Norte de Portugal, e vem construindo sua trajetória entre a música e o trabalho manual. Licenciado em música, professor e violoncelista, ele concilia a carreira artística com o trabalho como serralheiro.Aos 25 anos, ele afirma que a segunda profissão é apenas temporária, enquanto faz projetos ligados à música, à integração cultural e ao bem-estar social. Ele chegou a Portugal em 2014, estudou, se formou e hoje planeja levar apresentações musicais a lares de idosos em várias cidades portuguesas, além de gravar o primeiro disco no próximo ano.A relação de Estevão com a música começou ainda na infância, no Brasil. Quando se mudou para Portugal com a família, buscava melhores oportunidades e qualidade de vida. Como chegou à Europa ainda garoto. Atualmente, ele divide a rotina entre o trabalho em uma serralheria durante a semana e os compromissos musicais à noite e aos fins de semana.Aos sábados, dá aulas de música para adolescentes e adultos em níveis iniciante e intermediário. Apesar da dupla jornada, afirma que pretende dedicar-se integralmente à música no futuro. “Por questões maiores, vejo que estou precisando conciliar as duas profissões nesse momento”, afirma.Há dois anos, concluiu a licenciatura em Música. Após o curso, pensou em tirar um período sabático, sem envolvimento direto com estudos formais, dedicando-se apenas às apresentações em orquestras. Nesse intervalo, participou de um trabalho voluntário na África, onde permaneceu por dois meses.Ao regressar a Portugal, precisou procurar emprego para manter a estabilidade financeira. Mesmo conciliando duas atividades profissionais, Estevão afirma que a música permanece no centro de sua vida. O principal instrumento que toca é o violoncelo, ao qual se dedica há nove anos.
Nascido no Espírito Santo, Estevão Baptista quer levar música para idosos que vivem em lares, muitas vezes, abandonados pelas famílias
Arquivo pessoal
Experiências transformadorasO músico transita entre repertórios clássicos dos períodos barroco e romântico — o preferido dele — e obras contemporâneas. Também desenvolve experiências musicais que unem referências brasileiras e portuguesas, como interpretações que misturam elementos do fado com a música popular brasileira (MPB).Segundo ele, o trabalho como professor de música tem proporcionado experiências transformadoras. Estevão afirma perceber mudanças comportamentais e emocionais nos alunos ao longo do aprendizado musical.“A música tem influenciado nas vidas dessas pessoas. Aquelas que têm uma dificuldade maior de raciocínio, começam a raciocinar de forma mais lógica, segundo me relatam. E tenho achado isso muito interessante, porque cheguei a estudar sobre isso na disciplina psicologia da música, na minha licenciatura. E ao ver isso na prática, não só na teoria, percebo que tenho influenciado positivamente as vidas dessas pessoas com meu trabalho”, diz o músico, nascido em Vila Velha, no Espírito Santo.Ele conta que, durante as aulas, nota reações emocionais frequentes dos estudantes diante das composições clássicas. Ao tocar obras de Chopin, por exemplo, escuta comentários espontâneos dos alunos. “Essa música me faz pensar”, relatam alguns deles, segundo o artista. Para Estevão, a música estimula reflexões pessoais e desperta mudanças internas positivas.A experiência também se repete entre brasileiros que vivem em Portugal e acompanham as apresentações dele. Ele afirma que a música funciona como um elo afetivo para quem vive longe do país de origem. “Não é fácil mudar de país, deixar família e amigos, a nossa casa no Brasil e vir morar em outro país. E, apesar de eu ter vindo para Portugal muito novo, nunca deixei o Brasil, mesmo não mais tendo voltado lá depois de 12 anos”, afirma. Ele agradece aos colegas de trabalho e à fé que, segundo ele, sustenta os projetos pessoais e profissionais.Identificação emocionalSegundo Estevão, apresentações de MPB costumam provocar forte identificação emocional no público brasileiro. “Trazer o Brasil para as pessoas, com a música, tem sido muito bom. E fico muito feliz de poder influenciá-las dessa maneira”, ressalta.Hoje, a maior parte da plateia do capixaba é formada por portugueses, embora também realize apresentações para pessoas de outras nacionalidades, como colombianos e italianos, além de brasileiros. O músico já integrou a Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), experiência que o levou a se apresentar na Alemanha. Para ele, os alemães representam uma das principais referências mundiais na música clássica.Entre os projetos futuros, o brasileiro diz que pretende expandir iniciativas culturais para diferentes regiões portuguesas. Um dos objetivos é desenvolver ações musicais em lares de idosos, utilizando a música como instrumento de acolhimento emocional e resgate de memórias afetivas.“Hoje, Portugal tem muitos idosos e que estão em lares. Muitas vezes, a maioria deles está abandonada pelas famílias e isso é muito triste de se ver. Acho que a música poderia ser usada como remédio e também como veículo para trazer boas memórias e bons momentos a essas pessoas. Eu penso nisso como um projeto para levar a várias cidades de Portugal”, detalha.Além das apresentações ao vivo, que considera a parte mais gratificante da carreira, Estevão também prepara novos projetos para 2027. Entre eles, está a gravação do primeiro trabalho musical, além de vídeos voltados à música clássica para violoncelo solo e à música cristã.“Eu, como cristão-evangélico, vejo que são poucos os momentos em que o violoncelo entra no mundo gospel. E percebo que as pessoas no Brasil precisam ouvir mais o violoncelo, para que o som do instrumento se torne mais acessível”, complementa o músico.
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