Jornalismo e artes ocupam CCB para Festival de Histórias Verdadeiras
São histórias reais de pessoas de Lisboa apresentadas diretamente ao público, sem mediação tradicional em palco, ainda que com trabalho prévio de investigação e verificação jornalística, explicou à Lusa Catarina Carvalho, diretora do jornal digital Mensagem de Lisboa, que organiza o evento.
Tal como se lê na apresentação do programa do festival disponível no ‘site’ do Centro Cultural de Belém (CCB), “pessoas de Lisboa partilham com o público histórias verdadeiras — as suas”.
“Podem ser a de um varredor de rua que se tornou escritor de livros infantis, de uma antiga trabalhadora sexual que apoia vizinhos carenciados, de músicos que cantam Lisboa, de guerreiros dos jardins e ativistas ambientais, de um ‘rapper’ no comboio, de teatro musical”, exemplificam os organizadores.
O programa inclui também histórias ligadas à imigração, um amor visto como impossível, resistência musical em prisão, identidade linguística da cidade, um grupo de batucadeiras ou até de uma entrevista em forma de fado.
O festival integra propostas dirigidas ao público mais novo e atividades ligadas à gastronomia, incluindo uma feira de pequenos produtores, bem como narrações na primeira pessoa, poesia, música, debates, fotografia, teatro e ilustração ao vivo, num formato descrito pela organização como “jornalismo em pessoa – ao vivo, não gravado, imprevisível, único, com narração informada por investigação profunda e verificação”.
No dia 20 de junho, o programa abre com o painel “Como o jornalismo ao vivo está a reinventar as notícias”, com a presença de entidades internacionais como a Headliner, organização jornalística alemã, sem fins lucrativos, dedicada à cultura, o European Journalism Center e o Diario Vivo de Espanha.
Segue-se uma conversa em torno de fotografia, intitulada “As histórias por detrás das melhores fotografias”, em colaboração com a Leica, assim como sessões de jornalismo ao vivo, em que histórias da cidade são contadas pelos seus protagonistas, acompanhadas por música, desenho, teatro ou poesia.
Nesse dia, terá lugar ainda uma conversa sobre o futuro do jornalismo e o seu papel na sociedade contemporânea, intitulada “Jornalismo e a Paixão dos Factos”.
O dia 21 começa com uma sessão de jornalismo ao vivo direcionada para crianças entre os 06 e os 12 anos, que terão oportunidade de fazer perguntas e tirar dúvidas.
Um “pitch de ideias para Lisboa”, em que as propostas dos lisboetas para a cidade ganham vida através de ilustração ao vivo feita por Nuno Saraiva, e mais uma sessão de jornalismo ao vivo ocupam parte da tarde desse domingo.
A encerrar o programa, o encontro intimista “Música com legenda” convida um artista a partilhar a sua história, as suas inspirações e a relação da música com a cidade, numa entrevista guiada por temas musicais.
A diretora da Mensagem de Lisboa explicou à Lusa que o festival reúne diferentes dimensões já exploradas em iniciativas anteriores, mas num formato alargado.
“O que existe são pequenos espetáculos de jornalismo ao vivo que nós temos feito em vários teatros por Lisboa”, mas “este festival – esses dois dias de festival – é a primeira vez que acontece”, afirmou.
Segundo a responsável, o conceito base do festival assenta em histórias reais contadas em palco pelos próprios protagonistas, após trabalho prévio de investigação e preparação jornalística.
“Este festival é, no fundo, a base, a sua espinha dorsal são as histórias verdadeiras contadas em palco por pessoas que nós entrevistámos”, referiu.
Catarina Carvalho explicou ainda que o jornalismo ao vivo consiste em aproximar as histórias do público, e que, “em vez de haver um jornalista presente como moderador, existe um trabalho de bastidores que é feito com a pessoa que está no palco, e quem conta a história são os próprios protagonistas das histórias”.
Segundo a diretora da Mensagem de Lisboa, as sessões anteriores de jornalismo ao vivo têm tido elevada procura, com todas as sessões esgotadas, à exceção de duas.
“Mesmo agora, a última que fizemos, que foi em Benfica, a propósito da liberdade, porque foi naquela semana do 25 de Abril, foi no dia 01 de Maio, aliás, tivemos de mandar imensa gente embora”, recordou.
Segundo Catarina Carvalho, “o público tem demonstrado grande adesão a ver pessoas a contarem as suas histórias, e é muito emocionante, porque são histórias muito inspiradoras e emocionantes, que estão ali a ser contadas à nossa frente”.
“E também se vê a diversidade de Lisboa, porque nunca há só pessoas do mesmo tipo, não é? Há sempre pessoas muito diferentes, há sempre várias cores, várias origens, várias idades, vários géneros, portanto, há muita variedade e mostra (…) o que é a cidade”, sublinhou.
O festival de Histórias Verdadeiras surge também no contexto das comemorações do quinto aniversário da Mensagem de Lisboa.
“De alguma forma, esta iniciativa liga-se a essa celebração, que é a de já estarmos aqui há cinco anos a tentar melhorar uma cidade, a tentar mostrar o que é que a cidade é e o que é que as suas pessoas fazem”, afirmou Catarina Carvalho.
Nas palavras da responsável, o festival constitui uma forma de assinalar essa data através da presença em palco das histórias produzidas pelo projeto, e lembrando que aquilo foi o que fizeram “todos os dias”.
Num balanço de cinco anos de atividade, a diretora da Mensagem de Lisboa lembrou que o projeto nasceu com o objetivo de reforçar a ligação entre a cidade e os seus habitantes, tendo surgido “numa altura em que Lisboa estava a perder a ligação consigo própria”.
“Porque há muita coisa a mudar, há muitas crises, há a crise da habitação, há a crise dos transportes, há a crise da inflação, e, portanto, a Mensagem chegou numa altura em que as pessoas precisavam de se voltar a reconectar com a cidade”, afirmou, frisando que o projeto procura contribuir para uma maior ligação dos cidadãos à cidade através das histórias que divulga.
A título de exemplo, Catarina Carvalho contou que houve uma pessoa que certa vez disse que a Mensagem de Lisboa era “os óculos que ela punha para conhecer Lisboa”, pois “achava que conhecia a cidade, mas afinal não conhecia, porque não conhecia estas histórias todas que estão aqui um bocado escondidas”.
A este propósito, a responsável destacou que os tempos difíceis que o jornalismo atravessa e os perigos que enfrenta vão estar também em foco no festival.
“Vamos falar sobre factos, ficção, o que é que é verdade, o que é que não é, como é que as pessoas percebem as verdades e o que é que é isto das ‘fake news'”.
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