O futuro pertence aos povos que acreditam no seu destino
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Entre as viagens de trem de Budapeste a Oradea, vivenciando a transição entre o antigo universo austro-húngaro e o início do espaço histórico da Romênia ocidental, na fronteira cultural da Transilvânia, encontro mais uma oportunidade para refletir sobre a relação entre sujeito e sociedade. Busco compreender de que forma aquela cultura observava o viajante brasileiro que vive em Portugal e que, algumas horas depois, retornava em êxtase por aquilo que acabara de experiencia .No vaivém das ideias, da observação, dos breves diálogos com os habitantes locais e do olhar atento ao extraordinário patrimônio Art Nouveau de Oradea, reencontro autores que ajudam a compreender não apenas a cultura romena, mas também o que nós, brasileiros, representamos para o mundo.Foi Emil Cioran quem inspirou o título deste ensaio. Em A Transfiguração da Romênia, o pensador refletia sobre o destino histórico dos povos e sobre a necessidade de que as nações assumissem um papel ativo na construção de seu futuro.No século XX, diversos intelectuais do Leste Europeu enxergavam no Brasil e em outros países das Américas sociedades em expansão, ainda em processo de formação, enquanto a Europa carregava o peso de suas guerras, fronteiras e impérios. O contraste entre o velho e o novo mundo já alimentava reflexões que hoje estão presentes nas discussões da geração alpha.Esse olhar também aparece em Mircea Eliade uma autora que descobri durante minha visita a cidade. Na sua passagem pelo Brasil na década de 1940, registrou em memórias e correspondências o fascínio pela vitalidade do país, pela mistura cultural e pela sensação de estar diante de uma civilização jovem, em permanente construção. Via um povo disposto a aprender, empreender e reinventar-se a partir das possibilidades oferecidas por um território de dimensões continentais.Ao refletir sobre países em transformação, essa ideia parece encaixar-se naturalmente na comparação entre um Brasil ainda marcado pelo dinamismo demográfico e cultural e um Portugal demograficamente envelhecido, que enfrenta desafios estruturais e dificuldades para renovar parte de suas instituições. Apesar da profunda ligação histórica e linguística entre os dois países, persistem tensões, receios e visões políticas que muitas vezes dificultam uma aproximação mais ampla e produtiva.Não defendo um Brasil puro, até porque sua própria identidade nasceu à partir de muitas culturas. Da mesma forma, compreendo que parte das resistências observadas nas sociedades contemporâneas surge do receio diante de mudanças que se fazem necessárias. Ainda assim, é possível imaginar uma relação luso-brasileira baseada menos nas heranças do passado e mais na construção de um projeto comum, capaz de valorizar cultura, conhecimento, investimentos e circulação de pessoas.Enquanto o trem atravessa as planícies do leste europeu, outro pensador romeno surge nessa reflexão: Lucian Blaga. Sua ideia de que cada povo possui uma “matriz estilística” própria — uma força cultural profunda que molda sua forma de existir no mundo — ajuda a compreender por que a crença no destino continua sendo tão importante para indivíduos e nações.Talvez seja essa a principal característica do imigrante: carregar no peito a convicção de que o futuro pode ser construído. A crença, a força e a capacidade de agir sobre o próprio destino não pertencem apenas aos indivíduos. Também pertencem aos povos que se recusam a aceitar um papel secundário na história que, na sua maioria, formam o grupo daqueles sem a convicção e força na construção do seu próprio destino por desconhecerem um nova língua, hábito, lei e atitude. Talvez não saibam o que é uma fronteira.
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