Vacinas contra cancro baseadas no ARNm avançam, apesar do corte de fundos nos EUA
Os tratamentos baseados na mesma tecnologia de ARN-mensageiro (ARNm) que levou as vacinas da covid-19 para o mercado em tempo recorde estão a revelar benefícios duradouros contra o melanoma, um cancro da pele letal, e a mostrar-se como uma promessa inicial nos cancros do pâncreas e do cérebro, outrora considerados imunes ao ataque do sistema imunitário.Os avanços nas vacinas contra o cancro – consideradas como um dos segmentos de mais rápido crescimento na investigação oncológica – parecem estar a chegar, mesmo quando as autoridades norte-americanas enviam sinais contraditórios sobre os méritos e a segurança desta tecnologia. Mais de 130 estudos foram apresentados na reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em Chicago, este mês, centrados nesses esforços.Na vanguarda estiveram a Moderna e a Merck, cujo tratamento que combina um potente medicamento de imunoterapia com uma vacina experimental (de ARNm feita por encomenda) contra o cancro manteve o melanoma afastado durante cinco anos, um marco nos esforços para criar vacinas personalizadas para treinar o sistema imunitário a combater as células cancerosas.Estas duas empresas estão a testar terapias baseadas em ARNm em nove ensaios de grande e média dimensão em cancros do pulmão, rim, bexiga e pâncreas, e poderão ter os primeiros resultados do seu grande ensaio de confirmação em melanoma este ano.
Noutros locais, anos de investigação inicial em universidades e centros médicos evoluíram para programas de desenvolvimento em empresas farmacêuticas como a Roche e a empresa de biotecnologia BioNTech.A empresa de estudos de mercado Vision Research Reports prevê que o mercado de vacinas personalizadas contra o cancro, impulsionado em grande parte pela tecnologia ARNm, possa atingir 8500 milhões de dólares anuais até 2034.Nas doenças infecciosas, certas vacinas podem ensinar o sistema imunitário a reconhecer e a atacar os vírus, oferecendo uma protecção duradoura. “Este princípio pode agora ser aplicado ao cancro, o que constitui um grande avanço”, considera Eliav Barr, director Médico da Merck.Estes avanços surgem mesmo quando o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, liderado pelo activista antivacinas Robert F. Kennedy Jr. (RFK Jr.), cortou 500 milhões de dólares em projectos de vacinas de ARNm. RFK Jr. tem atacado a segurança e a eficácia das vacinas de ARNm sem provas e fez afirmações exageradas sobre os efeitos secundários.Ainda assim, o Instituto Nacional do Cancro está a colaborar com a Fundação para os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos numa parceria público-privada de 200 milhões de dólares para financiar ensaios de vacinas promissoras contra o cancro, incluindo as baseadas em ARNm.
Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos defendeu a posição de Kennedy em relação à tecnologia de ARNm para doenças infecciosas, mas disse que vê promessas nesta tecnologia para prevenir a recorrência do cancro, apontando para a parceria para as vacinas contra o cancro.No entanto, a divisão da investigação sobre o ARNm em silos pode atrasar os progressos de uma tecnologia promissora que foi administrada em segurança a mais de 700 milhões de pessoas durante a pandemia de covid-19, afirmaram os cientistas.“Temos de ser capazes de inovar em torno de tecnologias que vão melhorar os cuidados de saúde para todos”, diz Elias Sayour, que dirige um laboratório de engenharia de ARN na Universidade da Florida (EUA) e é consultor para as para as vacinas para o cancro no Instituto Nacional do Cancro. “Se não o fizermos, outros países irão fazê-lo.”Da descoberta inicial ao potencial avançoHá uma década, Vinod Balachandran, do Centro do Cancro Memorial Sloan Kettering, foi um dos primeiros cientistas a ver o potencial do ARNm para tratar até os cancros mais letais. Reparou que, em casos raros, alguns doentes conseguiam sobreviver ao cancro do pâncreas, uma doença que os cientistas acreditavam ser invisível para o sistema imunitário.Os estudos revelaram que, nestes casos, os sistemas imunitários dos doentes foram capazes de reconhecer e atacar os seus tumores. A questão era como tornar isto mais comum.Vinod Balachandran acredita que o ARNm, que pode ser produzido rapidamente, pode ser utilizado para conceber vacinas personalizadas com base em mutações genéticas específicas encontradas apenas nos tumores dos doentes após a cirurgia.Um ensaio de fase 1 com 16 doentes teve início em Dezembro de 2019, testando uma combinação de quimioterapia, a imunoterapia Tecentriq (atezolizumab) da Roche e uma vacina de ARNm feita por encomenda da BioNTech que visa proteínas mutadas com base nos tumores de cada doente.Em Abril, na reunião da Associação Americana para a Investigação do Cancro (AACR), Vinod Balachandran referiu que, dos oito doentes com cancro do pâncreas cujo sistema imunitário respondeu à vacina, sete ainda estavam vivos seis anos depois. Está agora a decorrer um ensaio global de fase 2 com 260 doentes para confirmar estes resultados.“Seria um grande avanço se o ARNm fosse a tecnologia que finalmente conseguisse obter uma resposta imunitária clinicamente significativa”, diz Robert Vonderheide, director do Centro do Cancro da Penn Medicine, uma rede hospitalar privada em Filadélfia, e presidente eleito da AACR.
O software do corpoO ácido ribonucleico mensageiro, ou ARNm, está naturalmente presente em todas as células do corpo. A sua função é transportar instruções genéticas do núcleo da célula para partes das células que produzem proteínas específicas.Elias Sayour chama ao ARNm o software do corpo humano. Pode ser reprogramado para realizar uma série de tarefas, incluindo a produção de proteínas que treinam o sistema imunitário para atacar agentes patogénicos infecciosos ou células cancerosas rebeldes, realça.Investigação como essa está a ser feita na Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, em Nova Iorque, onde Brian Brown, director do Instituto Icahn de Genómica, desenvolveu um método para desenvolver nanopartículas lipídicas – bolhas de gordura que transportam o ARNm para as células – para controlar o local do corpo para onde vão.Um estudo publicado pela equipa de Brian Brown na revista Nature Biotechnology, em Abril, sugere que o ARNm pode ser amplificado ou silenciado para aumentar a resposta imunitária ou atenuar reacções nocivas, conduzindo a tratamentos mais potentes contra o cancro ou a novas formas de tratar doenças auto-imunes.Elias Sayour desenvolveu uma vacina que envolve a injecção de aglomerados de nanopartículas lipídicas em doentes com glioblastoma, em vez de uma única nanopartícula utilizada nas vacinas contra a covid. Administrada por via intravenosa, o objectivo é estimular rapidamente o sistema imunitário a combater o cancro cerebral de crescimento rápido, cuja taxa de sobrevivência aos 5 anos é inferior a 7%.Enfrentar um cancro como o glioblastoma é uma tarefa difícil para uma vacina, observa Elias Sayour. Mas, segundo ele, “se conseguir curar ou mesmo fazer mossa no glioblastoma, as implicações para todas as formas de cancro humano são, na minha opinião, extraordinárias”.



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