Grupo M23 recrutou à força milhares de pessoas no leste da RDCongo
O Movimento 23 de Março (M23) tomou, desde o seu ressurgimento em 2021, vastas áreas de território nas províncias do Kivu do Norte e Kivu do Sul, no leste da RDCongo, assolada por conflitos há mais de trinta anos, incluindo grandes cidades, como Goma e Bukavu, no início de 2025.
Após a tomada destas cidades, o grupo armado “levou a cabo campanhas de recrutamento forçado em grande escala”, detendo “milhares de soldados congoleses, membros de milícias e, cada vez mais, civis, a quem submeteu a tratamentos desumanos”, acusa a HRW num relatório, baseado em entrevistas com 102 ex-detidos e “dezenas de outras fontes”.
Testemunhas e ex-detidos descreveram à organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos como “pessoas raptadas na rua ou nas suas casas, reunidas em encontros, em igrejas ou escolas, foram depois detidas em centros de detenção improvisados, campos militares ou transferidas para locais desconhecidos”, segundo o relatório.
Uma parte destes detidos, “alguns com apenas 12 anos”, foi enviada para centros de treino ou campos militares com o pretexto de receberem ali formação ideológica e militar de vários meses.
Nesses centros, foram “detidos durante semanas ou meses em condições desumanas e sujeitos a espancamentos, graves maus-tratos e execuções sumárias”, e forçados a alistar-se no M23 “sob ameaça de morte”, segundo a HRW.
As testemunhas entrevistadas pela ONG afirmaram “ter visto dezenas de pessoas morrerem devido às condições de detenção” em celas onde são sujeitas a “superlotação extrema, desidratação e fome”.
Segundo a HRW, “o número total de mortes nestes campos só poderá ser determinado com precisão se todas as valas comuns forem descobertas”, mas os “testemunhos de ex-detidos indicam que centenas de pessoas, ou mesmo mais, morreram devido às condições extremamente duras, às agressões físicas e às execuções” nestes campos.
Várias testemunhas também “identificaram a presença de oficiais superiores do M23” nestes centros e “afirmaram que muitos instrutores e guardas eram de nacionalidade ruandesa, alguns deles vestindo mesmo o uniforme das Forças de Defesa do Ruanda”, segundo o texto da HRW.
A RDCongo é palco de um conflito armado entre exercito e rebeldes do M23, apoiado pelo Ruanda, desde 2021, depois de vários anos adormecido. Este conflito agravou-se no final de janeiro de 2025, quando o M23 tomou o controlo de Goma, capital da província do Kivu do Norte e, semanas depois, de Bukavu, no Kivu do Sul, após combates com o exército congolês.
As duas províncias são ricas em minerais como o coltan, fundamentais para a indústria tecnológica no fabrico de telemóveis.
Não obstante a assinatura pelos presidentes congolês, Félix Tshisekedi, e ruandês, Paul Kagame, em Washington no passado dia 04 de dezembro, patrocinado pelo chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, ambas as partes acusaram-se mutuamente de violar o pacto desde então.
Desde 1998, o leste da RDCongo vive um conflito alimentado por grupos rebeldes e pelo exército, apesar do destacamento da missão da ONU na RDCongo (Monusco).
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