TECNOLOGIA

O sorriso da médica

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​​Na sala de espera, eu a aguardo. De repente, minha médica aparece no umbral da porta, sorri e me convida a entrar, o que, por si só, já é um diferencial: geralmente é a secretária ou a enfermeira quem conduz o paciente ao consultório. O paciente encontra o profissional confortavelmente instalado em sua cadeira, douto, excelso, mais saudável do que ele. Olha de baixo para cima como quem olha de cima para baixo.​​Minha médica me olha nos olhos e, enquanto nos instalamos em nossas cadeiras, ela pergunta o que pode fazer por mim. Esta é a quarta vez em que a encontro. Admito que essa simpatia resulta em parte das boas notícias que ela tem me dado até aqui. Da primeira vez, uma infecção do trato respiratório superior — algo de fácil solução, me assegurou ela com firmeza.Da segunda, um check-up, necessidade de saber se a calmaria externa do meu corpo encontrava respaldo em seus enredos subterrâneos. Eu tomo as boas novas como elogios. Já vivo num tempo em que não espero mais que me digam “que lindos olhos azuis”. Ferritina abaixo de 300 ng/mL já me deixa lisonjeado. PSA inferior a 1.0 mexe com a minha vaidade mais profunda.​​As informações são dadas entre sorrisos e tiradas perspicazes, como se ela esperasse sempre por um paciente saudável, ou se nenhuma enfermidade fosse capaz de resistir aos seus poderes mágicos.​​Entrego a ela os exames que me prescreveu na consulta anterior, mas estou sereno. A medicação provisória que ela receitou fez efeito e me faz crer que não haveria nada fora do normal nas análises laboratoriais. A doutora não lê as três páginas impressas com a testa franzida, como seria de se esperar, mas me convida a “lermos juntos”. Explica cada item ao pormenor: hematócritos, creatinina, bilirrubina, tudo é perscrutado, esmiuçado, escrutinado, e, sobretudo, mastigado para que eu entenda.​​De repente, penso em como se desenrolaria essa cena se naquelas linhas insondáveis houvesse uma sentença de morte. Ou melhor: como será a cena quando chegar a hora da sentença. Lembro-me então de um urologista de aspecto soturno que, após devolver às minhas mãos os exames que avaliara, disse apenas: “pode seguir sua vida”. Foi quando só então percebi que minha vida correra sério risco, sem que eu sequer suspeitasse.No caso da minha atual clínica geral, contudo, a vida flui estável e segura na tradução que ela vai fazendo dos mais árduos termos científicos, cada palavra acompanhada por expressões de satisfação que dissipam todo o suspense.​​Passamos aos exames físicos. Ela me fareja com a ponta fria do estetoscópio. É normal que não diga nada durante a auscultação, mas depois, em vez de retomar a conversa, limita-se a informar que irá apalpar meu o pescoço. Ao fazê-lo, deixa escapar um brevíssimo suspiro. Busco de imediato o seu olhar, que está fixo ao longe.Aliás, é impressão minha ou ela falou menos ao ler a última página dos exames? De todo modo, ela retoma o sorriso e informa que os pulmões estão limpos. Foi apenas mais uma leve infecção das vias aéreas superiores. A mudança de estação, a massa polar, etc.​​Mas agora é tarde. Já não consigo deixar de imaginar como ela se comportaria se tivesse más notícias a dar. A expressão se anuviaria e, em um segundo, eu teria compreendido tudo. Ela me olharia bem nos olhos? Fugiria para a escrivaninha, onde começaria a rabiscar os próximos passos do tratamento, a ser conduzido por um colega? Ou ela faria o anúncio sombrio com o semblante claro de sempre, confiante na vitória final? Mas, se fosse assim, seria aquele sorriso o mesmo de antes? Um esgar imutável diante da fortuna e do infortúnio?​​Em silêncio, abotoo a camisa enquanto ela guarda seus materiais. E se, em vez de otimismo, o sorriso de sempre tivesse apenas a intenção de consolar um condenado, dizendo “a vida é assim mesmo”? Rejeito o horror do consolo e volto à minha cadeira de paciente.Observo-a enquanto ela anota no receituário, sempre risonha, sempre falante: vitaminas, recomendação de um dermatologista, seu e-mail pessoal e seu número de telefone móvel. Ela está ao meu dispor. Ainda assim, eu consigo acrescentar uma última conta no meu rosário de especulações: e se ela estiver simplesmente mentindo? Por um instante, já não sei.​​A consulta termina. Ela me leva até a porta, anfitriã perfeita. E eu sigo o rumo de casa, sossegado e, talvez, condenado.
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