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Jafar Panahi condenado no Irão pelo “ilegal e problemático” <em>Foi só um Acidente</em>

A revista norte-americana Hollywood Reporter noticia neste domingo que o tribunal revolucionário iraniano confirmou o seu veredicto face ao cineasta Jafar Panahi: é culpado do crime de “propaganda contra o regime”, por isso enfrentará a proibição de sair do país e uma nova pena de prisão.Panahi esteve ausente do Irão entre Maio de 2025, quando o seu filme Foi só um Acidente ganhou a Palma de Ouro de Cannes, e Março de 2026, mês da cerimónia de atribuição dos Óscares, de que era um dos nomeados. Durante esse período, Panahi fora já condenado in absentia a um ano de prisão e a dois anos de proibição de sair do país. Para além de lhe ter sido vedado o direito de se inscrever em associações ou grupos de natureza social e política. O advogado do realizador, Mostafa Nili, interpôs recurso dessa sentença, recurso esse que agora viu indeferido e a sentença confirmada.Panahi, 65 anos, já está no Irão. No dia 30 de Março regressou ao país. É no Irão, como reafirmou em entrevista ao Ípsilon durante o périplo em 2025 pela Europa e América, que quer trabalhar. Não na Europa, onde já vivem os seus dois filhos, um deles o também realizador Panah Panahi (Estrada Fora, 2022), que se exilou.


Mostafa Nili — são dele as informações da Hollywood Reporter, a partir de uma entrevista dada pelo advogado ao diário iraniano Etemad — anuncia então que Panahi foi considerado culpado de ter feito um “filme ilegal e problemático contra o establishment”, de apoiar prisioneiros políticos, de subscrever protestos contra o Governo, de apoiar o Movimento Mulher, Vida, Liberdade, de assinar e espalhar petições em favor de uma greve de camionistas, de “pintar um quadro sombrio” do estado actual do Irão e de ter partilhado nas redes sociais um vídeo de um protesto. Tudo isso Panahi, de facto, fez.


Os serviços jurídicos que apoiam o realizador têm agora 20 dias para apresentarem um novo recurso.Confirmar a realidadeO realizador começou a filmar Foi só um Acidente após ter sido libertado da prisão de Evin, em Teerão, onde passou 86 dias, alguns deles em greve de fome, como cumprimento de uma sentença pelo crime de actividade antigovernamental, que datava de 2010. O tribunal executou-a quando, em 2022, Panahi se deslocou precisamente a Evin para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof (A Semente do Figo Sagrado) e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a repressão policial de manifestações populares na sequência do desmoronamento de um edifício de que resultara a morte de 41 pessoas. Foi então detido.O direito de filmar foi-lhe devolvido com a libertação, mas Panahi escolheu, contudo, realizar Foi só um Acidente de forma underground, para não ter de submeter o argumento à censura do regime. O filme baseia-se em histórias e experiências no cárcere vividas pelo próprio Panahi e por Mehdi Mahmoudian, co-argumentista, juntamente com Shadmehr Rastin e Nader Saeivar, e pela sensação do realizador, quando saiu da prisão, de que o país tinha irreversivelmente mudado com o Movimento Mulher, Vida, Liberdade.Quem viu o filme, história de um plano de vingança de um grupo de ex-prisioneiros que julga ter identificado o seu carcereiro e interrogador, reconhecerá este relato de Panahi: “Vendado, fiquei sentado virado para uma parede, dentro de uma cela de um metro por metro e meio, quase não havia espaço para me deitar, podendo ir à casa de banho duas ou três vezes por dia, mas sempre acompanhado e de olhos vendados. Uma vez, a pessoa que me estava a interrogar, atrás de mim, tirando notas” — sessões que tanto podiam durar duas ou três horas como oito — “interrompeu o interrogatório para ir rezar e depois regressou para continuar. No fim, deu-me um papel para assinar, e só nessa altura me foi tirada a venda. Depois, fui colocado numa sala maior, com três pessoas. Na minha prisão mais recente [em 2022] fiquei numa cela grande, com 300 pessoas, mas só 100 deviam ser prisioneiros políticos. Foi fascinante ouvir as histórias, o que estas pessoas tinham para contar”; ouvir é uma forma de os prisioneiros passarem as horas e os dias. “Por isso, o filme não conta só as minhas histórias. Mesmo já no set consultei o que se tinha passado com amigos, para confirmar [a realidade].”​Foi esse filme, montado em Paris, que Jafar pôde ir apresentar ao Festival de Cannes, 15 anos depois da última vez em que esteve autorizado a sair do país — durante o tempo em que esteve sem passaporte filmou às escondidas, aperfeiçoando uma forma de trabalhar sem autorização das autoridades, e foi também aprimorando os meios de passar esses filmes para os festivais ocidentais à revelia do regime. Assim aconteceu com Isto Não é Um Filme (2011), Táxi (2015), 3 Rostos (2018), Ursos não Há (2022).


O filme Foi só um Acidente — de facto, “problemático” para o regime: no horizonte de ficção do filme, a queda dos ayatollahs é uma realidade só à espera de confirmação —, que a França, país co-produtor, enviou para a nomeação aos Óscares na categoria de Filme Internacional.

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