É mais um doloroso episódio na expulsão de palestinianos e da ocupação de Israel: nos últimos dias e semanas, em Jerusalém, muitos palestinianos têm levado a cabo demolições das suas próprias casas depois de ordens judiciais para as deixarem. Tal como explicam, teriam de pagar a demolição a uma empresa, e, assim, fazê-la é uma alternativa menos má.A história da ocupação israelita tem episódios em que são os palestinianos quem constrói casas em colonatos em território ocupado. E também houve muitos palestinianos a trabalhar na construção do muro de separação entre Israel e a Cisjordânia, incluindo pessoas a quem o muro iria depois separar de Jerusalém, dificultando a sua vida diária.No entanto, o destruir a própria casa é algo diferente. O Haaretz ouviu a história de Mujahid Badran, 29 anos, inspector de transportes e pai de três filhos, que estava a levar a cabo a demolição da sua casa durante as festividades do Eid al-Adha, que coincide com o final do hajj, a peregrinação a Meca, na semana passada.“Ainda estou a demoli-la”, relatou ao diário hebraico — com alguns familiares, e utilizando dois martelos pneumáticos e uma marreta, demorou algum tempo. “Estou a demolir, com as minhas mãos, tudo aquilo pelo qual trabalhei.”Antes, o diário britânico The Guardian tinha ouvido Jalal al-Tawil, que comentava que era “mesmo difícil, mesmo amargo”, tratar da destruição da sua casa com um tractor que contratou para arrancar pedaços de parede da casa que o seu pai construiu onde tinha sido a casa dos avós. Por último, deixou cortar uma videira com 35 anos. “Costumava dar uvas para todo o bairro.”Escolher entre levar a cabo a demolição ou pagar por ela foi como “escolher entre suicídio ou ser assassinado”. Além do preço (custou-lhe um décimo tratar ele da demolição do que o que lhe seria cobrado pela câmara), diz que também lhe fazia impressão a ideia de deixar a demolição nas mãos dos israelitas: “Se forem eles a fazer, vão remexer tudo e deixar tudo num caos”, declarou.As duas demolições estão entre dezenas ordenadas judicialmente para o bairro de Al-Bustan, na zona de Silwan, onde o processo de demolições tem acelerado para abrir caminho a um parque temático chamado “Os Jardins do Rei”, parte do complexo chamado Cidade de David, que assenta numa ideia disputada, mesmo por arqueólogos israelitas, sobre o passado judaico da cidade, e que defende que os vestígios visíveis são da era do rei David.Durante as festividades do Eid houve, pelo menos, sete ordens de demolição, que se juntaram a mais de 50 nos últimos dois anos.O jornalista Mahmoud Awadallah, de Jerusalém, que tem familiares que foram alvo destas ordens, contou ao Haaretz que as famílias receberam um prazo de apenas três dias para levar a cabo as demolições, uma ordem que chegou no primeiro dia das festividades. “Caso contrário, viriam com as suas forças, demoliriam as casas e cobrariam o custo às famílias.”O custo das demolições soma-se muitas vezes aos custos da luta judicial pelas casas e à busca de uma solução alternativa para viver. As mais recentes demolições deixaram 50 pessoas sem casa e sem abrigo. Entre elas há crianças e idosos.“Estas não são casas recentes”, explicou ainda Awadallah ao Haaretz. “Algumas foram construídas antes de 1967, antes de Israel ocupar esta zona. As famílias têm documentos da altura do mandato britânico, das autoridades jordanas, e de hoje.”A Câmara de Jerusalém diz que a casa de Badran foi construída sem licença. Mas os palestinianos raras vezes conseguem licença de construção, como denunciam, há anos, várias associações de defesa de direitos humanos.Segundo uma investigação recente do Haaretz, em 2025 apenas 7% das aprovações de construção em Jerusalém foram para residentes palestinianos, apesar de estes serem 40% da população da cidade.Todo o bairro, com 115 casas e aproximadamente 1500 residentes está sob ameaça. “Há uma comunidade inteira prestes a ser expulsa”, disse ao site +972 Aviv Tatarsky, da organização não-governamental Ir Amin.Noutras zonas de Silwan, as casas das famílias palestinianas expulsas foram ocupadas por colonos.As demolições e expulsões em Silwan foram já descritas pelas Nações Unidas como uma violação do direito internacional, e a União Europeia apelou, no final de Maio, a Israel para “acabar com estas práticas e cumprir as suas obrigações no âmbito do direito internacional”.
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