TECNOLOGIA

278 motivos que a narrativa instalada prefere ignorar

Todos têm uma opinião sobre os jovens de hoje. Não têm iniciativa. Estão colados ao telemóvel. Chegam às entrevistas de emprego sem saber comunicar, sem tolerância à frustração, sem vontade de se comprometer com nada que exija esforço real. É um discurso que circula com a fluidez das coisas, sem que ninguém o questione, repetido em comentários de jornais, em mesas de café, em reuniões e em painéis de debate, onde os próprios jovens raramente são convidados a sentar-se. E tem uma característica curiosa: quem o repete raramente está por perto quando os jovens aparecem a fazer exactamente o contrário.No dia 8 de Maio, em Águeda, quatro estudantes universitários organizaram, do início ao fim, um evento cultural e solidário. ESTGA Jazz Day e nasceu no âmbito de uma unidade curricular da Licenciatura em Secretariado e Comunicação Empresarial da ESTGA-UA. Não havia gabinete de eventos por detrás, nem orçamento folgado, nem rede de contactos herdada. Havia quatro pessoas com uma ideia, um prazo e a responsabilidade de fazer algo que existisse fora de um documento do Word.O que existiu: 18 crianças de uma escola básica a construírem instrumentos com materiais recicláveis, numa manhã que provavelmente não vão esquecer tão cedo. Um concerto de jazz ao vivo com a Orquestra Ligeira de Águeda. Uma palestra sobre música e desenvolvimento humano, visitas à Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro, e uma comunidade que apareceu porque havia razão para aparecer. E, no final, 278 donativos entregues à Delegação da Cruz Vermelha de Águeda, entre roupa, alimentos e brinquedos. Concreto, mensurável, real. O tipo de resultado que não cabe numa rubrica de avaliação, mas que fica.Tenho dificuldade em conciliar este retrato com o discurso estabelecido. Não porque seja ingénua em relação aos desafios do ensino superior ou às fragilidades que, de facto, existem no modo como formamos jovens adultos, mas porque sei, por experiência directa, que a apatia que tanto se critica raramente é uma característica de quem chega. É quase sempre uma resposta ao contexto em que se encontra. Quando o projecto tem um propósito que vai além da nota, quando o trabalho tem consequências reais para pessoas reais, quando a avaliação não termina na entrega de um ficheiro em PDF e há alguém do outro lado à espera do que foi prometido, as coisas acontecem de forma diferente. As pessoas aparecem. Tomam decisões. Resolvem problemas que nenhuma aula antecipou.


Há também outra narrativa paralela, igualmente instalada, que merece ser contrariada com a mesma firmeza: a de que as universidades portuguesas vivem fechadas sobre si mesmas, indiferentes ao território, desligadas das comunidades onde estão inseridas. É uma crítica que tem substância em alguns contextos; não vou fingir que não. Mas é uma generalização que apaga deliberadamente os casos em que a ligação existe, em que a instituição é presença activa no tecido local, em que um projecto académico se traduz em impacto directo para quem vive ali. O ESTGA Jazz Day é precisamente esse caso: uma universidade que atravessa os seus muros, que mobiliza parceiros locais, que entrega à comunidade algo que a comunidade pode usar.O problema com ambas as narrativas, a do jovem desmotivado e a da universidade irrelevante, é que são extraordinariamente confortáveis para quem as sustenta. É muito mais simples lamentar o distanciamento das instituições de ensino superior do que propor uma parceria. É muito mais rentável, em cliques e em indignação partilhada, publicar um artigo sobre o fracasso da academia do que cobrir o que ela produz quando funciona bem. A crítica fácil tem uma audiência garantida. O reconhecimento do que resulta exige atenção, deslocação e alguma disposição para ser surpreendido.O ESTGA Jazz Day não é um caso isolado nem uma excepção que confirma a regra. É o que acontece com alguma regularidade, em muitos cursos, em muitas instituições, com muito menos visibilidade do que merecia. Não aparece nos noticiários. Não gera indignação partilhável. Não serve a narrativa já construída e que circula tão bem. Por isso passa, na maior parte das vezes, em silêncio.A questão nunca foi saber se os jovens têm iniciativa. A questão é quem está a prestar atenção quando a têm, e se essa atenção vale alguma coisa além de um scroll distraído.

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