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Exposição reúne obras de 14 artistas brasileiros em Lisboa: memórias e transformação

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O espaço NowHere Lisboa inaugura neste sábado, 6 de junho, às 18h, a exposição coletiva AMOSTRA\26, que permanece em cartaz até 25 de julho de 2026, na Estrada de Chelas 41A. Com curadoria de Luiza Baldan, Cristiana Tejo, Nico Espinoza e Victor Gonçalves, a mostra apresenta trabalhos desenvolvidos ao longo da quarta edição do Laboratório de Práticas Artísticas (LPA) e tem como objetivo tornar visíveis processos de criação construídos a partir da escuta, da convivência e da experimentação artística. Pela primeira vez, o projeto reúne exclusivamente artistas brasileiros e sua realização em Lisboa marca o fortalecimento das conexões entre Brasil e Portugal.A exposição reúne obras de Aline Mac Cord, Camila Leite, Denise Teixeira, João Wagner Daruich, Karin Cagy, Laura Drüsedau, Luciana Silveira, Luiza Volpato, Maria Luiza Dan, Mina Lancellotti, Rafa Diås, Raphos, Rodrigo Viana e Tuca Paoli. Os trabalhos abordam questões ligadas à memória, deslocação, corpo, envelhecimento, espiritualidade, território e transformação, compondo uma narrativa plural em que materiais, imagens e afetos permanecem em constante movimento, segundo explica Luiza Baldan.Mais do que apresentar obras finalizadas, AMOSTRA\26 propõe ao público o contato com processos artísticos desenvolvidos ao longo de nove meses. O projeto foi concebido como um espaço de acompanhamento, investigação e amadurecimento de ideias, em contraponto à lógica acelerada de produção que frequentemente caracteriza o sistema da arte contemporânea.Segundo Luiza Baldan, o Laboratório de Práticas Artísticas acolhe artistas ainda na fase inicial de seus projetos, incentivando o desenvolvimento de trabalhos inéditos ao longo do período de formação. “A ideia é que o próprio artista possa analisar pormenores da sua própria trajetória, compartilhar isso no grupo, para que a gente vá ganhando mais campo, mais terreno, para poder também intervir, comentar sobre o processo de criação do outro”, diz.


Percursos artísticosDe acordo com Baldan, no LPA os participantes apresentam seus percursos artísticos, incluindo projetos que não obtiveram os resultados esperados, mas que contribuíram para sua formação. A proposta é criar um ambiente de confiança e troca, no qual os artistas possam refletir sobre suas trajetórias e estabelecer relações de colaboração.É nesse processo inicial que se constrói a intimidade entre os participantes e se desenvolve uma dinâmica de observação coletiva. O diálogo constante permite que cada artista receba comentários, críticas e questionamentos capazes de impulsionar ou redirecionar suas pesquisas.O resultado desse percurso aparece na exposição não como uma síntese definitiva, mas como um recorte de um processo em andamento. “Então, quando penso esse campo de forças, seja o material ou a imagem escolhidos, o que entra em campo na exposição é justamente um recorte daquilo que foi trabalhado durante esses nove meses”, afirma a curadora.A concepção do laboratório também está ligada à relação de Baldan com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, instituição onde estudou e posteriormente atuou como professora. Ao aproximar-se do NowHere Lisboa, em 2021, a artista identificou afinidades entre os dois espaços, sobretudo no que diz respeito à valorização do pensamento artístico.Ela lembra que o Parque Lage teve papel decisivo na formação de gerações de artistas brasileiros, especialmente a partir da década de 1980, quando se consolidou como um dos principais polos de experimentação artística do país. Para Luiza Baldan, o NowHere compartilha dessa vocação de estimular a reflexão crítica e a criação coletiva.


Mostra vai até 25 de julho no espaço NowHere Lisboa
Denise Teixeira

“Eu falo isso com muito cuidado: em relação ao Brasil, Portugal tem uma tradição diferente do estudo das artes e acho que existe um frescor nesse pensar, nesse construir uma escola livre de artes. Creio que o NowHere tem essa afinidade, se aproxima do Parque Laje nesse sentido. E eu, quando proponho um LPA no NowHere, é justamente para criar uma dinâmica com limite, com prazo e que tenha um desfecho, que no caso é essa exposição AMOSTRA\26, que resulta de um grande laboratório de nove meses”, destaca a artista e professora carioca.Convivência contínuaO compromisso assumido pelos participantes ao longo desse período é apontado pela curadora como um dos elementos centrais da experiência. Além da convivência contínua, o prazo para a realização da exposição funciona como estímulo para que os projetos avancem e alcancem um estágio de apresentação pública.“E tem momentos na vida que a gente precisa dessas ‘bordas’, desse contorno, para a gente poder apresentar um resultado, ainda que eu diga que os resultados da mostra não necessariamente são a finalização dos projetos. Muitos deles continuam acontecendo além desse período dos nove meses e isso é maravilhoso”.A continuidade das pesquisas após o encerramento de cada edição é uma característica recorrente do programa. Alguns artistas retornam ao laboratório em anos seguintes, enquanto outros desenvolvem novos trabalhos a partir das experiências acumuladas anteriormente. Outro aspecto observado por Baldan é a influência mútua que se estabelece entre os participantes durante o processo. Embora cada artista desenvolva uma investigação própria, as discussões coletivas acabam produzindo aproximações temáticas e formais.“Há homens no grupo, mas há várias mulheres e temas sobre o olhar e as questões da mulher. Outras pessoas vão falar mais sobre cidade, a memória, enfim é como se fossem pequenos grupinhos que vão se formando. E isso ajuda a criar um certo contexto para a exposição. E como eu digo: são temas afins, que estão em voga, mas, ao mesmo tempo, existe essa ‘contaminação’. As pessoas acabam se retroalimentando das referências que vão aparecendo e mesmo que os trabalhos sejam muito diferentes um dos outros, e por baixo haja uma camada de contextos, em muitos pontos elas acabam se aproximando”.Essa interação pode ser percebida na própria montagem da exposição, onde surgem afinidades em torno de estruturas seriadas, painéis, grades, investigações sobre espiritualidade, memória, cidade e práticas colaborativas, comenta Baldan. Um dos exemplos destacados pela curadora é o trabalho de bordado desenvolvido por Luciana Silveira em conjunto com outras mulheres, evidenciando a dimensão coletiva presente em parte das obras.Só artistas brasileirosA AMOSTRA\26 marca ainda um momento inédito na trajetória do Laboratório de Práticas Artísticas. Pela primeira vez, todos os participantes são brasileiros. Em edições anteriores, o programa reuniu artistas vindos de diferentes países, como França, Áustria e Guatemala. A seleção atual reúne cinco artistas brasileiros residentes em Portugal e outros que vivem no Brasil, escolhidos a partir de candidaturas e entrevistas conduzidas pela equipe curatorial.Segundo Baldan, o processo de seleção considera não apenas a qualidade individual dos candidatos, mas também sua capacidade de contribuir para uma experiência coletiva. O intercâmbio entre os dois países será ampliado nos próximos meses. Como desdobramento da parceria entre o NowHere Lisboa e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, a exposição seguirá para o Rio de Janeiro após o encerramento da temporada portuguesa. A nova montagem será apresentada na Casa Lira durante a Semana de Arte do Rio, em setembro, consolidando uma ponte de circulação artística entre os dois lados do Atlântico.
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