Vanessa Taylor: “Os rios nunca são neutros, são canais de poder tanto quanto de água”

Vanessa Taylor: “Os rios nunca são neutros, são canais de poder tanto quanto de água”

Vanessa Taylor: “Os rios nunca são neutros, são canais de poder tanto quanto de água”

Na praça londrina de Trafalgar Square, na década de 1920, quando se cavavam as fundações da sede de uma seguradora, os operários encontraram, a cerca de nove metros de profundidade, restos de hipopótamos-comuns e de cágados-de-carapaça-estriada. Viveram e morreram num Tamisa mais amplo, quente e tranquilo, num período interglacial há cerca de 120 mil anos. Ícones britânicos como a National Gallery e a Coluna de Nelson assentam, sabemos hoje, sobre um mundo fluvial que já não existe, com outra geografia e outro clima.Este episódio, narrado por Vanessa Taylor no livro Sete Rios, é uma das múltiplas histórias escondidas em águas, leitos e margens fluviais do planeta. Ao longo de 370 páginas, a historiadora discorre não só sobre vestígios de antigos ecossistemas, mas também sobre pistas historiográficas que nos mostram como os rios foram (e são) espaços de poder e controlo, onde a humanidade procura domar a natureza e os seres vivos subjugam-se uns aos outros.Na obra, a autora escolhe sete cursos de água — Nilo, Danúbio, Ganges, Tamisa, Mississípi, Níger e Yangtzé — para narrar uma história global em que as correntes de água doce se prestam a múltiplos papéis. Ali, os rios figuram como canal de transporte, via de escoamento de mercadorias e dejectos humanos, objecto de culto, mas sobretudo instrumento de poder e dominação. “Os rios nunca são neutros, são canais de poder tanto quanto de água”, diz Vanessa Taylor.“Os rios estão sempre connosco. São canais vitais que atravessam as nossas paisagens, bem como recursos de enorme importância, porque todos precisamos de água para muitos fins diferentes, incluindo a nossa sobrevivência”, diz Vanessa Taylor, numa entrevista ao Azul por videochamada, a partir de Londres, onde vive e dá aulas de História Ambiental na Universidade de Greenwich.A forma como um rio é tratado, diz a autora, revela muito sobre o funcionamento de determinada sociedade. “O que fazemos com os nossos rios diz-nos quem tem poder e o que valorizamos”, afirma a historiadora. É através dessa lente que encontramos em Sete Rios referências a impérios e fronteiras, bem como a formas múltiplas de dominar, expandir, represar ou explorar os grandes cursos de água doce na Terra.O livro gravita, portanto, à volta da ideia de que rios, barragens e canais são reiterados objectos de disputa, porque são recursos vitais e corredores estratégicos. Vanessa Taylor lembra que os rios podem ser reconfigurados — do grande sistema de canais na China imperial a rotas como o Suez — e que também o bloqueio dessas ligações se tornou, historicamente, uma forma de travar ambições e impor custos. A actual tensão no estreito de Ormuz é um exemplo disso mesmo.


Autora: Vanessa Taylor
Tradução: Ana Pinto Mendes 
Editora: Temas e Debates, 504 págs. 24,90 euros​

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Escavar a história fluvialO processo de escrita de Sete Rios não implicou, com raras excepções, trabalho de campo. Vanessa Taylor viajou pouco, “não só por causa da pandemia”, mas por método e circunstância. Foi a Budapeste “para olhar para o Danúbio e pensar” e, no resto, trabalhou sobretudo a partir da secretária, com arquivo, bibliografia e vídeos, tentando construir uma imagem dos rios e das suas margens sem os percorrer fisicamente.Essa opção tem consequências: o livro confia no artifício da montagem histórica — e numa escrita capaz de aproximar o leitor de tempos e geografias distantes através de detalhes curiosos, objectos exumados e observações insólitas registadas por cidadãos comuns.Um inspector de actividades piscatórias descreveu em 1888, por exemplo, as coisas aleatórias que se encontravam nas redes de pesca no Reino Unido: ossos, talos de couve, bidões metálicos, chaleiras, calçados e até assentos de cadeiras de palhinha. A cultura do descarte selvagem não é nova, escreve Vanessa Taylor. Os rios assumiam, de alguma forma, o papel de contentor — atiram-se os resíduos e o problema “desaparece”.


Grande plano do núcleo urbano de Londres e um dos seus corredores ribeirinhos mais reconhecíveis, incluindo algumas das suas emblemáticas pontes
Satellite image 2026 Vantor / Getty Images

Nem todos os rios ofereceram à autora a mesma qualidade de fontes documentais. Vanessa Taylor conta que a parte mais difícil de redigir foi a do Níger, um dos maiores rios africanos e que atravessa, da Guiné à Nigéria, vários países do lado ocidental do continente. “Terá sido o mais complicado”, sobretudo por causa do acesso a documentação “relevante” que lhe permitisse seguir o rio, sem hiatos, “dos anos 1400 até hoje”.Noutros casos, como o Nilo, o problema é inverso: há uma abundância tal de literatura, inscrições, traduções e debates, que permite reconstituir classes sociais, crenças, trabalho forçado e formas de dominação associadas ao ciclo anual das cheias e à fertilidade dos solos agrícolas. No Níger, pelo contrário, foi preciso “escavar mais fundo”, depender de relatos isolados e procurar momentos que abrissem uma janela para o que se passava nas margens, para lá dos nomes de reis e imperadores.Portal para mundos perdidosUma das características mais formidáveis de Sete Rios reside na importância dos achados arqueológicos e dos pequenos objectos como motores de narrativa, por forma a dar espessura a tempos distantes, como aqueles em que os rios acolhiam hipopótamos (no Tamisa e não só). São objectos resgatados dos leitos, restos trazidos por dragas, descobertas feitas por curiosos, vestígios arrancados à invisibilidade.Vanessa Taylor explica que a sua relação com a História é, antes de mais, afectiva. “É algo bastante emocional”, diz, explicando que gosta de se “ligar ao passado”, ao sentimento de “quem esteve lá antes” e ao que está “no chão por baixo dos nossos pés”. Os achados funcionam como “um portal para um mundo perdido”.A abordagem da historiadora aproxima o leitor de rios que, a bem dizer, já não existem — seja por circunstâncias históricas ou geográficas. A escrita de Taylor apoia-se menos na descrição do curso de água, mais no que ele devolve — moedas, ossos, ferramentas, fragmentos de vida quotidiana — e no modo como essas devoluções confirmam que a paisagem tem memória.


Barco no Ganges, em Benares, Índia
Getty Images

A autora representa os rios como uma linha persistente numa geografia em mudança. No Mississípi, por exemplo, quis mostrar como o rio norte-americano pode ajudar a compreender o poder dos povos originários, mesmo quando foram deslocados à força e sujeitos a múltiplas formas de violência. Muitas comunidades mantêm recordações ligadas ao rio, e os próprios nomes de riachos, ribeiros e córregos podem carregar essas reminiscências.Vanessa Taylor lembra que os nomes dos rios são, frequentemente, “algumas das palavras mais antigas” de uma língua, por permanecerem relativamente estáveis através de deslocações, conquistas e mudanças políticas. Esta ideia de permanência, contudo, contrasta com sucessivas mudanças que os cursos testemunharam ao longo dos séculos — o controlo das cheias, os sistemas de irrigação e os projectos para fins energéticos (noras, moinhos e barragens) são alguns exemplos de reconfiguração da paisagem fluvial. Onde está o Amazonas?Perguntamos a Vanessa Taylor como elaborou a lista dos rios. Uma agente literária propôs-lhe cinco, a autora considerou pouco e subiu a fasquia para dez — “e o Amazonas estava lá” —, antes de terminar com “um conjunto gerível”, ou seja, os sete rios que ocupam as mais de 500 páginas da obra, incluindo mapas, extensas notas bibliográficas e um breve índice remissivo.“Toda a gente pergunta pelo rio Amazonas. Há um buraco em forma de Amazónia no livro, acho eu”, confessa Vanessa Taylor. A conclusão de Sete Rios, contudo, convoca a floresta no Norte do Brasil para mostrar como “os efeitos a longo prazo da expansão colonial europeia vigoram ainda”.Vanessa Taylor escreve sobre como a exploração mineira e da hidroelectricidade no Amazonas “dá seguimento a um processo lançado quando os europeus viram o rio pela primeira vez” em 1500. Em 2019, enquanto a floresta amazónica era “consumida pelas chamas alimentadas a barris de petróleo”, o então Presidente Jair Bolsonaro “rejeitou o dinheiro disponibilizado pelo G7 para extinguir os incêndios”, espelhando o que “a Europa fez às suas próprias florestas”.A escolha dos sete rios foi condicionada não só pelo acesso às fontes documentais, mas sobretudo pela língua em que esses registos estavam disponíveis. “Dominando apenas o inglês, eu estava inclinada a escolher rios em que sentisse que, em algum ponto da História, havia uma componente em inglês”, diz a autora, admitindo que o Império Britânico, ao “meter os tentáculos” em tantos lugares, acabou por influenciar indirectamente o mapa das fontes disponíveis. “Muitas vezes veio na esteira de outros impérios — holandeses, franceses, espanhóis — e, recuando mais, muito frequentemente dos portugueses.”


Vista de Aswan, rio Nilo, numa fotografia captada no final do século XIX
Antonio Beato/Sepia Times/Universal Images Group via Getty Images

A decisão de estruturar o livro em sete partes — uma para cada rio, cada uma com três capítulos — teve ainda uma lógica editorial. “O número sete tem este ar mítico, mágico”, diz, situando a obra numa tendência contemporânea de títulos que propõem ver o mundo através de um conjunto finito de objectos ou lugares.Mas Sete Rios não é um catálogo turístico nem uma colecção de paisagens — pelo contrário, é uma viagem por territórios de contenda. Taylor diz que “sempre foi atraída” por “lutas de poder”. Em cada capítulo, os registos históricos coligidos parecem tentar explicar “quem está a tentar controlar o rio” e como diferentes grupos, vivendo nas margens, tentam “lutar” para ter “uma palavra a dizer”.E como se a própria língua guardasse a memória secreta dos rios, a autora recorda a etimologia fluvial: rivus, do latim, evoca a ideia de rivalidade, “a pessoa do outro lado da margem”, alguém que persegue o mesmo bem, observa a historiadora. Entre a insignificância de pequenos fragmentos achados no lodo e a escala de impérios, barragens e rotas estratégicas, o livro termina com incerteza em relação aos rios em tempos de crise climática e novas disputas no tabuleiro geopolítico.“Qualquer que seja o nome que se dê ao futuro, os rios fazem parte das enormes mudanças em curso”, escreve a historiadora. “Num momento em que os ciclos hidrológicos de todo o planeta se recalibram, a precipitação é redistribuída, gerando cheias precedentes num lugar, só para intensificar as secas noutro.”No fim da entrevista com o Azul, Vanessa Taylor confessa-se “pessimista”, embora com “uma janela para o optimismo”, como se a esperança fosse também isso, uma espécie de afluente teimoso que avança mesmo quando o leito parece estreitar. A autora insiste em que os rios são um reflexo de nós mesmos, no que há de generoso e vil, cabendo à humanidade definir qual é o rumo que quer dar à própria história.

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