Guerra da Coreia: Veteranos franceses decidiram ser sepultados em Busan
Dois veteranos franceses da Guerra da Coreia foram sepultados, esta quarta-feira, em Busan, na Coreia do Sul, 75 anos depois de terem lutado no conflito. Desejavam repousar na terra que defenderam ao lado dos seus camaradas de armas.
O sargento Jacques Grisolet e o cabo André Datcharry, que morreram em França recentemente, elevam para 37 o número de veteranos que, tendo morrido várias décadas depois do fim do conflito entre as Coreias, que decorreu entre 1950 e 1953, decidiram ser enterrados no Cemitério Memorial das Nações Unidas, em Busan na Coreia do Sul.
O Cemitério Memorial das Nações Unidas é o único cemitério da ONU no mundo. Foi inaugurado em 1951 e homenageia os soldados dos países aliados que morreram durante a Guerra da Coreia. Até hoje, mais de 2.300 soldados de 14 países estrangeiros estão enterrados.
Na quarta-feira, os filhos de Jacques Grisolet e André Datcharry depositaram as suas cinzas durante uma cerimónia militar. “Estamos muito felizes que o pai tenha escolhido ter as suas cinzas depositadas neste magnífico cemitério internacional. Isto significava muito para ele”, reconheceu a filha de Grisolet, Élisabeth Magrou, ao Le Dauphiné Libéré.
“Sabemos que estará sempre rodeado por entes queridos, que haverá sempre cerimónias e haverá sempre atenção. Nunca estará sozinho. Descansará em paz nesta terra coreana, neste magnífico país que amava acima de tudo”.
Os dois veteranos eram membros do batalhão francês da ONU, formado em 1950 como parte da intervenção das Nações Unidas na invasão norte-coreana da Coreia do Sul.
André Datcharry serviu na Coreia de março de 1953 a agosto de 1954 e foi ferido duas vezes. Já Jacques Grisolet foi enviado para a Coreia duas vezes entre 1951 e 1953, tendo participado em várias batalhas importantes.
Para Patrick Beaudouin, presidente da Associação Nacional de Veteranos e Amigos das Forças Francesas da ONU, diversos fatores explicam o apego de muitos veteranos à Coreia, a ponto de desejarem ser sepultados lá, a milhares de quilómetros das suas famílias. “Quando chegaram à Coreia, ficaram impressionados com a pobreza do povo coreano. Ao verem aquelas longas filas de pessoas a fugir, creio que se lembraram do que vivenciaram quando eram jovens, durante a ocupação de França em 1940”, conta ao jornal.
Outro dos fatores estará relacionada com a violência do conflito. “Foi uma guerra com condições terríveis, as temperaturas caíram a pique para -35 e -40ºC e depois vieram monções. Havia muralhas de artilharia, havia combates corpo a corpo. Deixaram aqui parte do seu espírito e por isso quiseram voltar e descansar aqui para sempre”.
Já Stephanie Hwang, porta-voz do Cemitério das Nações Unidas em Busan recorda que “quando viram a Coreia pela primeira vez, há 76 anos, era um país reduzido a cinzas”, mas “quando regressaram décadas mais tarde, encontraram uma democracia próspera e uma potência económica. Saber que os seus sacrifícios lançaram as bases para o desenvolvimento e a prosperidade da Coreia enche-os de imenso orgulho”.
Estima-se que cerca de 3 milhões de pessoas tenham perdido a vida no conflito. Muitos milhares de coreanos fugiram, tendo-se tornado refugiados noutros países. A Coreia do Norte ficou completamente destruída pelas bombas norte-americanas e a Coreia do Sul ficou com sistema produtivo bastante afetado.
O armistício ocorreu em 1953, dando-se então o reconhecimento das fronteiras entre as duas Coreias – Norte e Sul -, seguido do repatriamento dos prisioneiros.
Portugal sob governo do Estado Novo não enviou tropas militares para a Guerra da Coreia. A participação portuguesa resumiu-se a apoio diplomático, logístico e humanitário.
Veja as imagens da cerimónia na galeria acima.
Leia Também: Dissidente foge da China para a Coreia do Sul num bote insuflável



Publicar comentário