Joana Vasconcelos dialoga com Picasso em Málaga em mostra "importante"
São 13 as obras de Joana Vasconcelos, produzidas entre a década de 1990 e a atualidade, numa “visão abrangente” da sua obra, que a partir de sexta-feira podem ser vistas em salas de dois andares do Museu Picasso Málaga, a cidade do sul de Espanha onde nasceu Pablo Picasso.
“É um marco na minha carreira porque tem uma série de peças que nunca estiveram juntas desta forma. Mas principalmente é um marco porque é um diálogo no espaço com Picasso. As pessoas visitam o museu e saem de uma sala com pinturas e desenhos de Picasso e entram mas minhas salas nestes dois pisos”, disse hoje Joana Vasconcelos à Lusa, em Málaga, durante a apresentação da exposição “Transfiguração” à imprensa e convidados do museu.
É uma exposição que permite uma “visão abrangente da obra de uma das artistas europeias mais singulares do panorama contemporâneo”, como a apresenta o Museu Picasso Málaga, e que a artista disse hoje pretender ser um reflexo da própria transfiguração que tem havido na sua obra e na sua carreira ao longo das décadas.
Joana Vasconcelos explicou que Picasso é uma fonte de inspiração e, para a sua obra, “significa muito aquilo que é o título da exposição, a transfiguração”.
Picasso, sublinhou, teve uma “carreira muito longa, que se transfigurou, que mudou, que teve vários períodos, várias épocas, e foi um artista que se conseguiu adaptar aos tempos e conseguiu manter sempre uma visão muito contemporânea e muito clara sobre o momento em que estava a viver”.
“Foi um artista que aguentou várias situações difíceis e que manteve sempre um nível e uma qualidade e uma criatividade enorme na sua obra. Portanto, é uma referência para todos nós e é uma fonte de inspiração em termos de cor, em termos da sua tradição, como representava o seu país, como trazia as suas tradições, presentes na sua obra. E é isso que eu, de alguma maneira, também tento fazer”, acrescentou Joana Vasconcelos.
Na apresentação da exposição, a artista destacou como, por exemplo, Picasso fez um percurso entre o bidimensional da pintura e do desenho e a escultura ou entre a abstração e a figuração, estabelecendo paralelos com a sua própria obra.
A artista portuguesa e o curador da exposição, Miguel López-Remiro, diretor artístico do Museu Picasso Málaga, revelaram que “Transfiguração” é o resultado de quase dois anos de trabalho entre Joana Vasconcelos e a instituição.
A exposição acaba por ser “uma espécie de invasão amável” de Joana Vasconcelos “na casa de Picasso”, congratulou-se Miguel López-Remiro, que destacou que as 13 obras, muitas delas monumentais, estão em dois pisos, no pátio e nas duas varandas do museu.
“Transfigura tudo o que toca, a nós e ao espaço”, disse o curador, sobre Joana Vasconcelos e a sua obra.
A obra mais antiga de Joana Vasconcelos exposta no Museu Picasso Málaga é “Flores do meu desejo”, de 1996, cedida para esta mostra pela Fundação EDP.
A mais recente é “Floresta Encantada”, de 2024, exposta pela primeira vez em Hong Kong, na China. Trata-se, porém, de uma nova versão desta instalação, criada propositadamente para o espaço do Museu Picasso Málaga, onde ocupa toda uma sala.
“Acabámos aqui a ‘Floresta Encantada’, que é uma peça que já tínhamos feito outras vezes, mas nunca com o rigor e com a qualidade com que fizemos aqui e realmente é uma peça muito diferente”, explicou à Lusa.
A exposição integra obras cedidas por instituições como a Fundação Louis Vuitton, o Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão (MUSAC), o Museu Extremenho e Ibero-americano de Arte Contemporânea (MEIAC), a Fundação EDP, a Coleção Luis Adelantado (Valência) e o próprio estúdio de Joana Vasconcelos.
Entre as obras exibidas em Málaga estão peças icónicas da artista como “Vista Interior”, de 2000, “Carmen”, de 2001, “www.fatimashop”, de 2002, “Coração Independente Preto”, de 2006, ou “Betty Boop (PA/AP)”, de 2020.
Integram ainda a exposição obras monumentais como “Valkyrie Marina Rinaldi”, de 2014, “Loft”, de 2010-2017, ou “J’Adore Miss Dior (PA/AP)”, de 2017, além de “Floresta Encantada”.
Joana Vasconcelos, nascida em 1971, conta com uma carreira de mais de três décadas, que se caracteriza pela descontextualização de objetos do quotidiano e pela apropriação do artesanato tradicional, que adapta ao século XXI para questionar temas como o papel da mulher, a sociedade de consumo e a identidade cultural.
Foi a primeira artista mulher e a criadora mais jovem a apresentar o seu trabalho no Palácio de Versalhes (França), numa mostra individual que bateu recordes de visitantes, e tem levado a sua produção a instituições como o Museu Guggenheim Bilbao (Espanha), o Palácio Pitti e as Galerias Uffizi (Florença, Itália), entre outras.
Joana Vasconcelos, primeira artista a vencer o Prémio Novos Artistas Fundação EDP, em 2000, começou a expor na década de 1990, tendo o seu trabalho sido projetado internacionalmente em 2005, quando participou na Bienal de Veneza com a peça “A Noiva”, um lustre monumental composto por tampões de higiene íntima feminina.
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