Onda de calor na Primavera vai continuar: Mora ultrapassou recorde com 69 anos. O que se passa?

Onda de calor na Primavera vai continuar: Mora ultrapassou recorde com 69 anos. O que se passa?

Onda de calor na Primavera vai continuar: Mora ultrapassou recorde com 69 anos. O que se passa?

Mora e Alcobaça já registaram valores recorde de temperaturas máximas em Maio, enquanto Odemira e Lamas de Mouro observaram também temperaturas mínimas elevadas, quando comparadas com outros meses de Maio. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) informa que o calor excessivo teve início a 20 de Maio e que “é muito provável que a onda de calor persista e até se possa estender a mais regiões do território continental”. A onda pode durar até 15 dias em alguns distritos.Esta terça‑feira, Mora atingiu os 39,4 graus Celsius e Alcobaça os 36,1, valores que ultrapassam os extremos registados em Maio de 1957 (39 graus Celsius) e de 1978 (35,3 graus Celsius), respectivamente. Feitas as contas, é preciso recuar 69 anos em Mora e 48 em Alcobaça para encontrar os anteriores recordes. Já no que respeita às temperaturas mínimas mais elevadas, o IPMA indica que as estações de Odemira e de Lamas de Mouro registaram 19,9 e 18,9 graus Celsius no passado dia 22 de Maio, valores superiores aos observados em 1999 (19,8) e em 2001 (18,3).Só os mais distraídos podem confessar‑se surpreendidos. Os cientistas têm alertado de forma insistente para a elevada probabilidade de aumento de fenómenos extremos associados às alterações climáticas. Os últimos dias — e noites — vividos na Europa são mais uma prova disso. Noites tropicais, recordes sucessivamente batidos e até mortes associadas ao calor são algumas das manifestações desta onda de calor que atinge o continente na Primavera que, segundo os investigadores, está claramente associada às alterações climáticas.


15 dias de onda de calorO IPMA alerta para uma possível onda de calor com duração até 15 dias no interior do país. Ainda assim, prevê‑se uma descida das temperaturas máximas a partir de 28 de Maio no litoral oeste. Esta quarta‑feira, todos os distritos estarão sob aviso, à excepção de Faro.Na terça‑feira, 18 (32%) das estações meteorológicas automáticas da rede do IPMA utilizadas para monitorização, encontravam‑se oficialmente em situação de onda de calor, refere o Instituto numa resposta enviada ao Azul, na qual adianta que, segundo as previsões, as temperaturas elevadas não só vão continuar nos próximos dias como se irão estender a outras regiões do país.Esta quarta‑feira de manhã, o IPMA partilhou os dados que reflectem a evolução do episódio até às 19h de 27 de Maio. “Com base na informação mais recente, 17 estações meteorológicas automáticas da rede do IPMA, utilizadas para monitorização deste fenómeno, encontram‑se em situação de onda de calor”, refere a nota de imprensa, especificando que “a onda de calor registada na estação meteorológica de Vila Real de Santo António foi, entretanto, interrompida”.O que se passa?Mas de onde vem esta onda de calor que está a afectar vários países da Europa durante a Primavera? Álvaro Silva, investigador da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e especialista em condições meteorológicas extremas, confirma a ocorrência de temperaturas “excepcionalmente elevadas” para esta época do ano. E explica, em resposta ao Azul: “O episódio de calor precoce que se verifica na Europa Ocidental deve‑se a um bloqueio anticiclónico persistente, com advecção de ar quente proveniente do Noroeste de África”.Segundo o investigador, o ar quente permanece praticamente estacionário, em vez de ser substituído por ar mais fresco do Atlântico. “Esta configuração favorece ar descendente que é comprimido e aquece (heat dome)”, refere, numa alusão à chamada cúpula de calor. “Acresce ainda que as condições de céu limpo permitem que a radiação solar atinja continuamente a superfície e intensifique o aquecimento. Este tipo de situação pode, tipicamente, durar vários dias”, alerta ainda Álvaro Silva.


Anomalia de temperatura prevista para esta semana na Europa
Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF)

O cientista partilha igualmente informação do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), na qual se observa a anomalia de temperatura prevista para esta semana na Europa. O vermelho, que assinala uma anomalia significativa — valores superiores à média —, é a cor predominante.Além de muito calor, as previsões meteorológicas para os próximos dias apontam para trovoadas secas, e ventos fortes, que se vão sentir sobretudo nos distritos de Vila Real, Viseu, Coimbra, Aveiro, Braga e Viana do Castelo. O IPMA prevê para esta quarta-feira, “aguaceiros no interior Norte e Centro, mais prováveis nas zonas montanhosas, que serão acompanhados de trovoada e poderão ser ocasionalmente sob a forma de granizo e acompanhados de rajadas fortes”.


Temperaturas perigosasPorém, apesar da explicação mais detalhada do fenómeno que nos atinge agora, a verdade é que, no fundo, a resposta para o que se passa é bastante óbvia: alterações climáticas. Friederike Otto, cientista especialista em Ciência do Clima no Imperial College de Londres, sublinha, num comunicado de imprensa da World Weather Attribution, que “este calor recorde tem as impressões digitais das alterações climáticas por todo o lado” e acrescenta: “Temperaturas desta escala eram outrora raras mesmo no pico do Verão. Ver 35 graus Celsius no Reino Unido durante a Primavera é absolutamente espantoso.” Para a investigadora, a ligação é inequívoca: “as alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais quentes, mais longas e muito mais frequentes”.Mas o impacto vai além do desconforto. Garyfallos Konstantinoudis, do Grantham Institute, alerta, no mesmo comunicado, que “esta onda de calor excepcional de Primavera é muito mais do que uma perturbação incómoda do sono, do trabalho ou do estudo”.Para os mais vulneráveis, “estas temperaturas são simplesmente perigosas e potencialmente fatais”, sobretudo em episódios precoces. “As ondas de calor no início da estação são especialmente perigosas porque o corpo ainda não teve tempo para se adaptar.”


Alertas na EuropaA onda de calor está a afectar grande parte da Europa, com temperaturas recorde para Maio e alertas das autoridades em países como Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Áustria e República Checa, além de Portugal.As temperaturas elevadas registadas em vastas regiões do continente, muito acima do normal para Maio, obrigaram as autoridades de vários países a emitir alertas de calor e a adoptar medidas preventivas, nomeadamente para evitar incêndios florestais.O Governo francês contabilizou sete mortos, cinco dos quais por afogamento, relacionando os óbitos com a onda de calor que atinge o país, disse a porta‑voz do Executivo, Maud Bregeon.O porta‑voz da Agência Estatal de Meteorologia de Espanha (AEMET), Rubén del Campo, anunciou na segunda‑feira uma nova subida das temperaturas a partir de quarta‑feira em grande parte da Península Ibérica, com os termómetros a atingirem cerca de 40 graus Celsius e a ocorrência de “noites tropicais”.Esta onda de calor não será um acaso meteorológico nem uma excentricidade da Primavera. É um sinal claro de um clima em transformação e de um planeta em total desequilíbrio. Episódios que antes eram raros tornaram‑se plausíveis; os plausíveis, frequentes; e os frequentes, cada vez mais extremos. O calor que hoje surpreende na Primavera antecipa o que será normal no futuro. A ciência já explicou as causas, os dados confirmam‑nas e a realidade impõe‑se. O recado é simples e desconfortável: habituem‑se — a menos que se mude, de forma séria e urgente, o rumo que nos trouxe até aqui.

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