Ser jovem e advogada: entre o código e a curiosidade
Dizem-nos, desde cedo, que o Direito é uma profissão de certezas. Que o trabalho do jurista é encontrar a norma certa, aplicá-la ao caso concreto e seguir em frente. Se fosse assim tão simples, provavelmente não estaria a escrever este texto. Estaria, talvez, a preencher formulários em piloto automático, convencida de que a advocacia é uma profissão mecânica que dispensa inquietação. Felizmente, não é. E foi essa descoberta – a de que o Direito é tudo menos previsível – que me fez apaixonar por esta profissão.Comecei o meu estágio numa sociedade de advogados internacional e foi aí que tudo ganhou outra dimensão. O primeiro dia numa grande estrutura tem tanto de entusiasmante como de desafiante: o ritmo é intenso, os temas são exigentes e a vontade de estar à altura é enorme. Para alguém que vem da universidade, onde os debates são longos e as conclusões podem ficar em aberto, o ritmo é outro. Aqui, o cliente espera respostas – e espera-as rápido.Houve quem me dissesse que a minha geração quer tudo de imediato e não sabe esperar. Talvez haja alguma verdade nisso, mas também é verdade que trazemos uma curiosidade genuína que pode ser um motor de mudança. “Porque é que se faz assim?” é uma pergunta muitas vezes recebida com um sorriso pedagógico e outras tantas capaz de abrir portas para diálogos estimulantes e verdadeiramente formativos. A advocacia, como tantas outras profissões, tem as suas tradições. Algumas são pilares essenciais, outras podem beneficiar de um olhar novo. E é aí que os jovens podem (e devem) contribuir.
O que tenho é a convicção de que o Direito precisa de gente nova, não para repetir o que já foi feito, mas para questionar, propor e construir.
Trabalho na área de penal. Escolhi-a por fascínio genuíno. O direito penal lida com o que há de mais humano: a liberdade, a culpa, os limites daquilo que o Estado pode fazer a uma pessoa. E, num mundo em que a tecnologia avança a um ritmo que o legislador nem sempre acompanha, as questões que se colocam são cada vez mais complexas. Pode o cérebro de um arguido ser “lido” por uma máquina? Pode a ciência substituir o interrogatório? São perguntas que parecem ficção científica, mas que podem vir a bater à porta dos tribunais. A investigação e a prática não vivem em mundos separados. Antes pelo contrário: é quando dialogam que o Direito evolui.Mas ser jovem advogada não é só discutir grandes temas. É também aprender a ouvir (verdadeiramente ouvir) quem nos procura. Um cliente que enfrenta um processo-crime, ou que foi vítima da prática de um crime, não quer apenas um técnico competente. Quer alguém que compreenda o peso daquilo que está a viver. E isso não se aprende nos manuais. Aprende-se com a experiência, com a empatia e, sobretudo, com a humildade de reconhecer que há sempre mais para aprender.Há uma certa narrativa que insiste em rotular os jovens profissionais como impacientes, pouco resilientes, demasiado preocupados com o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (como se isso fosse um defeito). Eu prefiro olhar para a minha geração de outra forma: somos exigentes, sim, mas também connosco próprios. Queremos fazer bem, mas queremos perceber porquê. E queremos que o trabalho faça sentido, não apenas que preencha horas.Não tenho respostas definitivas – e desconfio de quem as tem cedo demais. O que tenho é a convicção de que o Direito precisa de gente nova, não para repetir o que já foi feito, mas para questionar, propor e construir. Porque uma profissão que não se renova só envelhece.



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