Contra princesa “caridosa”, Brasil deixou de celebrar abolição oficial da escravatura

Contra princesa “caridosa”, Brasil deixou de celebrar abolição oficial da escravatura

Contra princesa “caridosa”, Brasil deixou de celebrar abolição oficial da escravatura

Em 1888, entre várias revoltas, o Brasil viu surgir na sua legislação uma novidade que muitos desejavam. A 13 de Maio, a princesa Isabel colocou no papel o que já se ia verificando em vários casos e, com a assinatura da Lei Áurea, aboliu oficialmente a escravatura no país. No entanto, 138 anos depois, já não se sai à rua no Brasil para celebrar o 13 de Maio. No mês em que se assinala o aniversário da assinatura histórica, persiste a pergunta: quem foi, afinal, responsável pelo fim da escravidão no Brasil?Maria Helena Pereira Toledo Machado é historiadora e professora na Universidade de São Paulo. Especialista em história social da escravatura, abolição e pós-emancipação, é autora de diversos livros e artigos, além de investigadora em estudos de raça na América Latina. Entre as obras da professora, destaca-se O Plano e o Pânico: os movimentos sociais na década da abolição, livro que aborda o contexto político, histórico e social da época da assinatura da Lei Áurea, além de discutir as suas consequências na sociedade brasileira.Para a historiadora, o 13 de Maio perdeu espaço para a celebração de datas como o dia da Consciência Negra, a 20 de Novembro. O movimento teve início na década de 1970, quando se passou a revisitar a história brasileira com um olhar crítico. Desde então, explica, entende-se que a assinatura da Lei Áurea foi o reconhecimento branco de uma luta negra.O que aconteceu no dia 13 de Maio de 1888?Neste dia, como a historiografia conservadora consagrou, a princesa Isabel, que era regente naquele momento, assinou a Lei Áurea, que é uma lei muito simples. Diz: “a partir desta data, não existe escravidão no Brasil”. A historiografia tradicional, e mesmo ao longo do século XX, tomou isso como uma imagem de que, no Brasil, o fim da escravidão tinha sido pacífico, feito pelo amor caridoso de uma mulher, de uma mãe. Então, foi erigida toda uma imagem, uma história, um discurso, a respeito do “fim pacífico” da escravidão e da “gratidão dos ex-escravizados”.Essa imagem atravessou o século XX e consagrou-se como uma verdade. Mas a própria historiografia e os documentos do século XIX negam [esta narrativa] peremptoriamente. A última década de vigência da escravidão no Brasil foi tumultuada, cheia de revoltas de escravos. E, a partir de 1885, sobretudo em áreas importantes como São Paulo — área cafeicultora, que tinha um dos maiores números de escravizados na década de 1880 —, os escravos começam a abandonar as fazendas, a entrar em cidades, a ir para Santos, que era um refúgio.No fundo, a geração da qual faço parte veio retomar essa ideia de que a [iniciativa da] abolição não apenas incluiu as camadas médias da cidade, mas também os pobres e, no fim das contas, os escravizados.Por que a Lei Áurea é assinada pela princesa Isabel?A princesa Isabel, como uma estratégia de popularização que o pai dela já seguia, procurou cercar-se de abolicionistas. Eles faziam um discurso muito humanitário, mas que era, ao mesmo tempo, muito popular entre as elites, mesmo entre os senhores de escravos.No Brasil, não havia ninguém que falasse a favor da escravidão na década de 1880. Desde a década de 1850, falava-se no Brasil que a escravidão era um mal, mas era um mal necessário: “nós vamos abolir a escravidão logo que pudermos”. É diferente dos Estados Unidos, que desenvolveram todo um discurso, livros, teorias, que afirmavam que a escravidão era boa para os escravizados, para os africanos e seus descendentes. No Brasil, isso não aconteceu. Existia uma hipocrisia geral: “somos contra, mas não podemos abrir mão”.Disse que a assinatura da Lei acontece num contexto de pressão popular. Quais eram os focos dessa pressão?Sobretudo, a lei foi assinada naquele momento porque praticamente já não havia escravizados nas fazendas. A fuga era generalizada. A hegemonia da classe senhorial já tinha sido perdida. A polícia não conseguia reprimir. O exército já tinha dito que não era capitão do mato [figura da altura com a tarefa], que não ia perseguir escravos em fuga. Já não existiam forças de segurança que mantivessem o escravizado. Começa a haver repressão, começa a haver tentativas de linchamento. Então há uma divisão, uma quebra da hegemonia dos senhores de escravos. E isso leva, inclusive, o Partido Republicano Paulista — que era altamente escravista por muito tempo — e os nomes mais importantes [da política da época] a aconselharem os senhores a deixarem ir todos os escravos e a tentarem fazer contratos de trabalho com pagamento de salário.Nesse sentido, pode-se dizer que a assinatura da lei foi uma formalização simbólica do que já acontecia na prática?A assinatura da lei foi muito importante, não há como negar, porque a legislação brasileira não proibia a escravidão e, a partir daquele momento, passou a proibir. Então isso é um marco histórico importante. Naquela época, no dia 13 de Maio, houve uma festa generalizada em todo o Brasil. As comemorações demoraram uma semana, com paradas, bailes, procissões. Era uma alegria geral, era uma coisa muito esperada. Os escravizados, que legalmente foram libertados — mesmo os fugidos, os que já não estavam sob as ordens dos senhores, mas eram legalmente escravizados — comemoraram muito. O que acontece na década de 1970, com a ascensão dos movimentos negros, é que a ideia do 13 de Maio doado benignamente, paternalisticamente por uma mulher branca começa a ser profundamente criticada. E começam a aparecer novas datas. É nesse contexto que aparece o dia de Zumbi [dos Palmares, líder quilombola símbolo da luta dos escravos por liberdade], o 20 de Novembro, que é o dia da Consciência Negra e que seria um dia de um marco independente na histórica dos escravizados, dos africanos. Da resistência, da rebeldia deles. Porque o 13 de Maio tinha se transformado nessa data “oficialesca”, em que a gente vai lá elogiar uma mulher branca pela conquista de uma população negra.Uma das principais críticas tecidas em relação à Lei Áurea é que ela abolia a escravatura sem garantir qualquer tipo de apoio aos escravos que estavam a ser libertados. Que tipo de impacto isso causou na época e causa até hoje na sociedade brasileira?Obviamente que existiam projectos de reparação paralelos à lei. A própria princesa, já tardiamente, tenta, como uma maneira de conseguir apoio popular, aderir a essas teses que são parcialmente reparacionistas. Só que ela entra de maneira muito tardia, como um golpe publicitário.Então, a sociedade brasileira ficou com esta necessidade de reparação. É óbvio que a sociedade brasileira tem uma dívida, porque escravizou durante séculos. Enquanto colónia eram os portugueses, obviamente. Mas depois da independência [essa prática] continuou, e há hoje uma dívida da escravização e uma dívida da não-reparação histórica, desde o 13 de Maio de 1888. E essa necessidade de reparação fica óbvia quando se vê os índices da sociedade brasileira.O PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios], indica que ainda há desigualdade de salários entre brancos e negros. Na letalidade policial, que é um dos grandes temas de discussão no Brasil, ainda persiste uma desigualdade brutal entre brancos e negros. A base da sociedade brasileira ainda é a desigualdade colonial e imperial.O Brasil foi o último país independente a abolir a escravidão atlântica. Como se explica esse atraso?O Oriente continuou a escravizar, mas a escravidão atlântica, ligada à expansão do capitalismo, aos colonos, o Brasil foi o último [a abolir]. No tráfico, o Brasil recebeu, por volta de 4,8 milhões de africanos. No geral, para as Américas, vieram em torno de 7 milhões, sendo que 4,8 vieram para o Brasil. E, portanto, houve um genocídio durante séculos em diferentes sociedades africanas. E o facto de termos sido os últimos a abolir isso não é uma explicação simples. Na sociedade colonial brasileira — aliás, portuguesa, e depois o império —, a escravidão sempre teve uma certa flexibilidade. Existia, por exemplo, o costume da alforria: o escravizado podia comprar a própria liberdade. E em 1850, mais ou menos, o tráfico atlântico de facto acaba e cede lugar ao tráfico interno.A partir daí, há uma série de leis com melhorias, como a Lei do Ventre Livre: os filhos de mulheres escravizadas, a partir da data da lei, 28 de Setembro de 1871, nasciam livres. Mas veja bem: nasciam livres, mas eram tutelados pelo senhor da mãe até os 21 anos. Isso é liberdade? A sociedade brasileira, colonial e imperial, tinha muitas “válvulas de escape”, e uma série de acordos políticos que mantinham a escravidão viva.A grande criatividade do Estado brasileiro foi conseguir criar um Estado nacional, uma monarquia constitucional, com a escravidão. E com um sistema político altamente restritivo, aristocrático. Porque todos os países latino-americanos, e inclusive os Estados Unidos, nas colónias do norte e da costa leste, terminaram com a escravidão na independência.Mas o Brasil chegou a expandir a escravidão no século XIX. E construiu um edifício político que, com essas leis, com a alforria, ia esvaziando uma [possível] revolta geral de escravos. E quando o fim da escravidão foi assinado, de facto, já quase não havia escravo nenhum. Então, a partir desse entendimento, podemos dizer que a Lei Áurea legitima um fim que já tinha acontecido socialmente.Texto editado por Pedro Sales Dias

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