Quanto rende este sofrimento, se faz favor?
Se há uma coisa ridícula que todos tentamos fazer é rentabilizar o sofrimento.Habita em nós um sentimento de merceeiro inútil e pateta quando tentamos transformar a dor em algo positivo. Há tempos, ouvi o Miguel Esteves Cardoso falar sobre isto e fiquei a pensar: “O sofrimento é inútil, não serve para nada.”Portanto, não vale a pena tentarmos dizer que aprendemos imenso, que agora é que somos pessoas a sério, que assim, sim, agora é que é, que toda a gente devia passar por isso. Eu digo: tretas. Não precisamos do sofrimento para nada; aliás, passávamos bem sem ele e bem regaladinhos da vida estaríamos se não tivéssemos de passar por algum purgatório que nos deixa marcas.Desculpem, mas ficamos pessoas melhores? O tanas. Conhecem alguma pessoa a quem isso tenha acontecido? Eu não. Normalmente, azeda-se, como leite depois de aberto e sem refrigeração, e o processo não é reversível. Tem de se comprar outro pacote, que é como quem diz, mudar de vida e tentar esquecer aquilo que nos azedou os dias. Muitas vezes fomos nós próprios que nos pusemos a jeito, algumas vezes sem saber e outras conscientemente: “Opá, isto está a ser mesmo difícil.”Seja um trabalho, uma relação, um conhecido chato como tudo que, ao fim de umas horas de convívio, nos faz perder a vontade de viver, uma doença que aterroriza e aleija a sério o próprio ou quem se ama, seja o que for, um sofrimento maior ou pequenino, é sempre uma chatice dispensável, não me venham com tretas.É claro que percebemos de onde vem esta ideia de merceeiro aplicada ao sofrimento, todos temos de lá passar, mais tarde ou mais cedo. Por isso, mais vale fingirmos que aquilo serviu para alguma coisa, que foi mesmo revelador e instrutivo. Mas a verdade, verdadinha, é que sabemos que aquilo não deu para nada, que não rendeu um chavo, que nem para uma bica grátis deu.



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