O Coração Ainda Bate. A caixa de lenços

O Coração Ainda Bate. A caixa de lenços

O Coração Ainda Bate. A caixa de lenços

Passaram dois meses desde que visitei, pela última vez, a sala da minha psicóloga. Normalmente, entro em silêncio; os olhos nunca se desviam muito do chão, porque já vou a fazer contas ao sumo dos dias. O cadeirão de pernas bojudas está ali, como sempre. Há uma caixa de lenços de papel que já usei. Quantas vezes essa caixa precisa de ser renovada? Ainda haverá quem leve o lenço de pano com as iniciais bordadas? Os lenços de pano deviam ser guardados com as lágrimas que a dor de um amor contém. Mas começo a desviar-me do consultório. Ficaria uma tarde inteira a fazer perguntas sobre os pequenos rituais que aqui ocorrem.

Entro e digo apenas: “olá, eu espero aqui”. Depois, cruzo as pernas, pouso a mala e faço contas ao incómodo; seja pela dor, seja pela falta de respostas que ainda não encontrei. Ela chega, entretanto. Talvez nunca ninguém lhe pergunte se está bem, se lhe dói alguma coisa, se ela própria já usou a caixa dos lenços de papel. Vem com um sorriso que conheço há muitos anos e, mal ela entra, é como se eu mergulhasse para dentro de mim, correndo o sério risco de me afogar.Em dois meses muitas coisas aconteceram e é isso que lhe quero contar. Então priorizo episódios. Fiz uma lista mental e levo-a, sem papel. Haverá perguntas que me são devolvidas intactas para que seja eu a repeti-las. Eu penso e respiro ou respiro e penso. Os bons psicólogos inventam janelas num mundo que asfixia. As vezes que eu já respirei de alívio…Dois meses pode ser tanto: já era Primavera quando lá fui, mas até podia continuar presa ao Inverno. Muitos olham pela janela e não veem a abundância do jardim; só mais um dia que precipita a noite escura.Em sessenta dias não me fiz outra, mas o mundo testa-nos diariamente; enigmas são lançados sem contorno ou destino. A vida é como se fosse uma permanente emboscada. Pensavas estar apta para o súbito ataque e afinal, sem saber, tinhas as mãos e os pés atados.Dois meses vão dissolver-se em menos de uma hora. A ampulheta elimina o que está a mais. No fundo sabemos sempre qual é a dor maior. Depois de exposta a dor, que pode parecer um grande peixe escalado, somos tentados a perceber que se calhar exagerámos no impacto que permitimos que tivesse em nós. Talvez não. Talvez até estivéssemos a fechar os olhos ao que ainda é maior do que supúnhamos. Fazemos isso quase todos: tentamos pisar a dor como se fosse um pequeno insecto que nos zumbiu ao ouvido, até lhe termos acertado em cheio. Quando cai, vamos pisá-lo de novo, como se a dor e o alívio nos saíssem dos pés.Muitas vezes saio daquela pequena sala, bem decorada, como se levasse um gelado na mão. Não é um prémio, longe disso. É algo que levo comigo, ainda para desfrutar. São respostas que afinal encontrei e estavam dentro de mim, mas não saíam porque nunca nos conseguimos distanciar de nós próprios se não for pela voz dos outros.Por falar em voz: fiquei afónica. Será a afonia uma luta de palavras pela sua sobrevivência? Ficam presas e saem devagar, levando o seu tempo, como se fosse um resgate.O meu marido mandou-me uns versos de um poema da americana Anne Sexton que diz que “o amor e a tosse não podem ser disfarçados”. De facto, de momento, não os consigo evitar. Não fosse o amor e os dois meses passados seriam um inverno duro. E, entretanto, tusso.Em dois meses tive de arranjar soluções para os enigmas. Ou uma estratégia para me libertar das cordas que me prendiam as mãos e os pés. Ela disse: “quer vir cá antes?” e eu armei-me em crescida e disse que não.Talvez a sala já esteja diferente. Vou reparar na caixa de lenços e perceber-lhe o uso. Levo comigo mais perguntas que respostas. Sairei, mais uma vez, com mais respostas do que inquietações.O coração ainda bate

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