Portugal habituou-se ao cansaço e isso deve preocupar-nos
Há uma normalização silenciosa do mal-estar em Portugal.Vivemos cansados. Dormimos mal. Temos dificuldade em concentrar-nos. Ganhamos peso sem explicação evidente. Perdemos energia. Sentimo-nos mais irritáveis, mais lentos, mais exaustos. E, perante isto, criámos uma resposta coletiva quase automática: “é do stress”, “é da idade”, “é do ritmo de vida”.O problema começa quando sintomas persistentes deixam de ser questionados e passam a ser integrados como parte normal da vida adulta.É precisamente aqui que as doenças da tiróide continuam a escapar ao radar.As doenças tiroideias estão entre as patologias endócrinas mais frequentes e estima-se que possam afetar cerca de um milhão de portugueses. Ainda assim, continuam amplamente subdiagnosticadas. Os dados internacionais sugerem que uma parte significativa das pessoas com doença tiroideia desconhece a sua condição.Isto significa que há potencialmente milhares de pessoas a viver durante anos com sintomas persistentes sem suspeitar de uma doença crónica.E esse é talvez o aspeto mais preocupante destas patologias: a forma silenciosa como se instalam e a facilidade com que os seus sinais se confundem com aquilo que a sociedade moderna passou a considerar “normal”.Fadiga persistente. Alterações de peso. Falta de energia. Alterações de humor. Queda de cabelo. Dificuldade de concentração. Sintomas extremamente frequentes, mas também profundamente desvalorizados.Na prática clínica, é comum encontrar pessoas que passaram demasiado tempo a adaptar-se ao que sentiam. Mulheres que ouviram repetidamente que era “normal” sentirem-se cansadas. Pessoas que aprenderam a funcionar em permanente desgaste físico e emocional sem perceber que podia existir uma causa clínica concreta.E talvez seja precisamente essa a grande armadilha das doenças da tiróide: raramente surgem de forma dramática. Não provocam, na maioria dos casos, um episódio agudo evidente. Instalam-se lentamente. Progressivamente. Quase de forma invisível.Mas o impacto existe e está longe de ser irrelevante.Quando não diagnosticadas ou inadequadamente controladas, as doenças da tiróide podem afetar significativamente a qualidade de vida, a saúde mental, o metabolismo, a fertilidade, a gravidez e o risco cardiovascular. No caso do hipotiroidismo, falamos frequentemente de uma doença crónica que exige terapêutica e acompanhamento para toda a vida.Ainda assim, continua a existir uma perceção pública de que estas patologias representam apenas um “problema hormonal menor”. E essa visão simplista acaba por contribuir para atrasos no diagnóstico, banalização dos sintomas e desvalorização do impacto real da doença.Num momento em que tanto se discute saúde mental, burnout, produtividade e exaustão coletiva, talvez devêssemos refletir melhor sobre aquilo que estamos a normalizar.Nem todo o cansaço é doença. Mas também nem toda a fadiga persistente deve ser automaticamente atribuída ao stress ou ao estilo de vida.A Semana Internacional da Tiróide, este ano assinala-se entre 25 e 31 de maio e é dedicada ao tema “Thyroid & Nutrition”, procura precisamente chamar a atenção para a relação entre metabolismo, energia, alimentação e bem-estar. E esse enquadramento é particularmente relevante numa altura em que existe uma crescente tendência para tentar resolver sintomas complexos exclusivamente através de alterações de alimentação, suplementação ou estratégias de otimização do estilo de vida.A alimentação é fundamental para a saúde global. Mas não deve substituir avaliação clínica quando existem sintomas persistentes.O risco de banalizar permanentemente o mal-estar é começarmos a tratar apenas as consequências sem procurar compreender a causa.Enquanto sociedade, habituámo-nos demasiado ao desgaste. E isso pode estar a atrasar o reconhecimento de doenças que têm tratamento, acompanhamento e impacto real na vida das pessoas.Talvez esteja na altura de voltarmos a olhar para sintomas persistentes com mais atenção clínica e menos resignação coletiva.Porque viver permanentemente cansado não deve ser considerado o novo normal.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990



Publicar comentário