Quando as mulheres passam o prazo de validade
Cher fez 80 anos esta semana, tem uma longa carreira, não apenas na música, mas no cinema; tem uma vida preenchida, é uma activista, é uma mãe preocupada com um filho que lhe dá imensas dores de cabeça e o que é que um leitor, observando uma fotografia da artista com uma afilhada, a também cantora Jesse Jo Stark, comentou na notícia no site do PÚBLICO? Passo a citar: “E melhor é não a verem de perto. Quanto à outra, porque é que as mulheres têm de fazer figuras daquelas?”As duas cantoras estão na passadeira vermelha do Met Gala, evento que este ano foi bastante polémico, e Jesse Jo Stark enverga um vestido onde se consegue ver todo o seu corpo. Não está nua, não há nada de gráfico ali, mas o leitor, um verdadeiro polícia de costumes, questiona se “as mulheres têm de fazer figuras daquelas”. Têm. Têm todo o direito de fazer todas as figuras que quiserem e, ainda assim, serem respeitadas. Parece difícil de compreender mas na verdade é muito simples.Mas há mais policiamento na frase do leitor: “E melhor é não a verem [a Cher] de perto.” Porquê? Porque envelheceu? Porque envelheceu mal ou porque, aos seus olhos, fez demasiadas plásticas? E depois, o que tem o leitor a ver com isso? Mais uma vez, é respeitar e aceitar que envelhecemos, todos, o leitor não é excepção, e que cada um de nós é livre de gerir essa inevitabilidade à sua maneira. Aliás, são julgamentos como este que alimentam a indústria da beleza — não há marca que não venda fórmulas antienvelhecimento para aplicarmos a partir dos 25 anos de idade (!); e as clínicas de estética aí estão cheias de tratamentos mais ou menos invasivos.A verdade é que, nos últimos tempos, com a ascensão das redes sociais e das ideias que por lá pululam, há um enorme preconceito em relação ao envelhecimento no feminino. Há dias, apareceu-me nas redes sociais uns minutos de um programa brasileiro, só homens a conversarem, e um deles comentava que Shakira, que deu um concerto gratuito no Rio de Janeiro, no início do mês, onde estiveram dois milhões de pessoas, era velha. Tem uns 60 ou 70 anos, calculava um tipo já bastante maltratado pela vida. A cantora colombiana tem 49 anos, dizia outro. É uma mulher bem-sucedida e, só com este espectáculo terá gerado 137 milhões de euros para a economia do Rio, noticiamos. Mas, no fim do dia, para aquele homem de aspecto gasto, o que interessa é que Shakira, aos seus olhos, já passou de validade porque ele gosta, disse-o com um ar boçal, de mulheres entre os 20 e os 30 anos. Também o rosto de Madonna, 67 anos, passa constantemente por este escrutínio. Em Abril, no festival Coachella vestiu a mesma roupa que tinha envergado da primeira vez que participou no tão badalado festival californiano, há 20 anos. Madonna trazia o mesmo corpete (e este acabou por desaparecer), esteve em palco com Sabrina Carpenter, 27 anos, e cantou êxitos antigos, Vogue e Like a Prayer, destacando-se ao lado da jovem Carpenter pela sua energia, segurança e carisma. Os comentários? Que está velha e irreconhecível… Algures um homem terá escrito ou pensado “porque é que as mulheres têm de fazer figuras daquelas?”.O prazo das mulheres expira quando as maçãs dos seus rostos caem para lá do nível do queixo. Mas, mesmo que sejam jovens, expira quando atingem um determinado peso, quando vestem determinada roupa ou quando têm determinada opinião. As mulheres estão em constante escrutínio, não interessa quão brilhantes ou bem-sucedidas sejam. É assim que a sociedade patriarcal castiga as mulheres, amesquinhando-as e tornando-as invisíveis. Mulheres com personalidade, com sucesso, com vidas que nenhum desses homens conseguiu concretizar são reduzidas a nada, umas coitadas a fazerem “figuras daquelas”, carimbam-nas eles, do alto da sua nulidade.No fundo, a maioria destes homens que se esconde por detrás de um ecrã são pequenos nadas, que nada têm a oferecer às mulheres senão a narrativa que estas têm de voltar para casa para engravidarem e ficarem dependentes deles. O amor não é dependência, é respeito, admiração e igualdade. É preciso que Cher, Shakira, Madonna e tantas outras mulheres no mundo da música e não só, mostrem de cabeça erguida que falharam e tentaram de novo, que deram uma, duas, três, muitas oportunidades aos seus companheiros, que por vezes se submeteram às suas vontades em nome do amor, mas que acabaram por se escolherem a si mesmas. O que é Believe, de Cher, senão um hino ao amor-próprio e à resistência feminina?Boa semana.P.S.: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.



Publicar comentário