Antes que saibamos

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Às vezes, o que dá nas vistas não é o que foi escolhido para mostrar-se, tampouco é algo que já estava exposto. Pode ser o que nos foge, o que se desvela para além de uma vontade consciente. É tudo o que nos escapa, como um enamoramento que se dá às claras, diante dos olhos de estranhos, sem que os envolvidos percebam cruzar o limiar entre uma atração despretensiosa e uma avalanche bioquímica.É primavera e é bonito contemplar os casais que trocam sorrisos e se olham com deslumbramento, numa intimidade ainda recente, que traz o frescor de permitir-se ser bobo e fazer brincadeiras um com o outro sem se importar com o entorno. Talvez seja só a estação do ano, ou talvez seja a primavera da vida, mas dia desses flagrei o reencontro de um casal entre a saída de comboios e o metrô da estação de Campanhã.Desci de manhã de um trem que vinha de Lisboa e avistei um rapazinho com a capa negra das vestes acadêmicas descendo do mesmo vagão que eu. Ele trazia flores embrulhadas num papel celofane colorido, arrematadas por um laço de cetim branco, o que fazia com que a sua presença fosse difícil de ignorar. Muitos dos que desceram do mesmo trem seguiram em direção ao metrô, inclusive nós.Quando chegamos à plataforma, uma jovem, com cabelos longos, de regata branca, shorts jeans e tênis All Star, o aguardava na plataforma. Era bonito o contraste entre a jovem alta e corpulenta e o rapazinho franzino e baixinho, como aquelas personagens que aparecem nos livros do cartunista Robert Crumb. A desproporção volumétrica entre os corpos dos dois me lembrava a pintura Saturno devorando um filho, de Francisco Goya, mas, na minha releitura, o Saturno era a jovem de shorts e o filho era o rapazinho de capa negra e traje acadêmico.Beijaram-se até que os óculos dele quase caíssem e o próximo metrô chegasse. Mesmo após embarcarmos, não conseguiam deixar de estabelecer algum tipo de toque físico, fosse permanecer de mãos dadas, deixar a mão repousada sobre o colo dela ou fazer-lhe um cafuné. Despedi-me dessa cena quando desci numa estação um pouco mais adiante, mas ter flagrado o olhar de encantamento do rapaz pela jovem foi um deleite.Ao olhar de fora, era inquestionável o seu estado apaixonado. Por ela. Mas será que eles dois também sabiam disso? Percebi esses dias que não eram só eles. Na queima de fitas, que ocorreu recentemente na cidade, pude flagrar olhares semelhantes entre outras capas negras, o que denota uma primavera em que a presença enamorada e a efusão acadêmica suavizam um pouco cada canto da cidade.Quem vê de fora, às vezes, se faz mais consciente do que quem está dentro, que ainda nem sabe que já está apaixonado e se aperceberá por acaso, como quem contraiu uma gripe. A paixão de primavera chega como a febre alta que assalta o corpo e faz com que nos percebamos enfermos até que passe o resfriado… ou o enamoramento. Não tem cura nem remédio. Só espera e paliativo. Até que passe. E uma hora, isso também passa. Mas o que fazer até lá?Amores de verãoO vento leva qualquer fogo de palha, mas na primavera, não. Na primavera, o vento frio do Norte deixa que se espalhem as fagulhas até que um sinal de fumaça finalmente aqueça essa cidade e faça com que os corpos em brasa esqueçam o frio que embotou os seus sentidos durante o inverno.O vento poupa as paixões primaveris para criar espaço para os amores de verão, antes que os galhos das árvores se desnudem, os caminhos se desencontrem, as mensagens emudeçam e o outono ponha tudo abaixo com a melancolia do autumn blues.A paixão de primavera permite o respiro de uma vida em flor antes que os dias voltem a escurecer mais cedo, que o frio do inverno amorteça o apetite, que os corpos dos amantes se despeçam e que, de repente, a samba-canção que era despida às pressas no canto do sofá da sala, sem nem dar tempo de chegar ao quarto, acabe esquecida numa gaveta qualquer.Já que a finitude é inevitável, há de se enfrentar as paixões de primavera quando elas nos tomam de assalto ou acatá-las em silêncio, como todos os que calam as suas paixões, na hesitação de não as viver enquanto a vida ainda pulsa e tudo à volta está em flor.Também há quem prefira, com as suas razões, render-se ao inverno da alma em vez da bem-aventurança das paixões de primavera, do fervor dos amores de verão e das desilusões de outono. Há os que já não têm mais fôlego para se aventurar, trazem o coração aos remendos e já esqueceram o que é suspirar de amor. Os que, após tanta queda, já não morrem de amores e trazem no peito um coração que respira com ajuda de aparelhos.Já para os que ainda têm fôlego e cartilagem nos joelhos para cair mais um pouquinho, eis um conselho de primavera: aventurem-se cautelosamente. Sem arder em brasa até que a chama os reduza às cinzas, mas com a coragem de quem se despe para um amante pela primeira vez.
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