Serviço público e rentabilidade não podem (e não devem) estar de costas voltadas

Serviço público e rentabilidade não podem (e não devem) estar de costas voltadas

Serviço público e rentabilidade não podem (e não devem) estar de costas voltadas

Fala-se muitas vezes do medicamento a partir da perspetiva da inovação, do acesso ou da despesa pública.Menos visível, mas absolutamente determinante, é o circuito que garante que esse medicamento chega, em tempo útil e com segurança, às farmácias e aos cidadãos. É precisamente aí que a distribuição farmacêutica de serviço completo assume uma função de interesse público que importa reconhecer e também proteger do ponto de vista económico e financeiro.Os dados mais recentes mostram com clareza o valor que este setor gera para o nosso sistema de saúde e para a nossa economia.Em Portugal, a distribuição farmacêutica de serviço completo cobre todos os distritos e regiões autónomas, através de 26 plataformas logísticas, cerca de 600 veículos e aproximadamente 335 milhões de unidades entregues por ano.Ao assumir o circuito de ponta a ponta, este modelo reduz em 96% os custos administrativos na cadeia de valor, face a um modelo de distribuição direta, e assegura uma janela média de disponibilidade de produtos de 2,3 horas. Sem este sistema – que agrega, numa só entrega, encomendas de, em média, 19 laboratórios –, as quatro milhões de entregas anuais de medicamentos às farmácias aumentariam para 405 milhões.


Além disso, o contributo em programas de saúde pública, como a vacinação, evidencia uma capacidade operacional com impacto direto na vida dos utentes e na eficiência do sistema de saúde. Só na campanha de 2025-2026 foram distribuídas três milhões de vacinas contra a gripe e a covid-19.No campo meramente económico, os seis principais operadores no mercado, responsáveis pelo abastecimento de 94% do total de medicamentos no país, empregam diretamente mais duas mil pessoas e são responsáveis por 0,1% do PIB nacional.Este serviço de interesse público convive, porém, com uma tensão estrutural: a exigência de assegurar capilaridade territorial, um abastecimento ininterrupto e elevados padrões regulamentares num contexto de pressão crescente sobre os preços dos medicamentos e margens limitadas, que, em muitos casos, não acompanham a evolução dos custos financeiros e de operação.A distribuição farmacêutica é obrigada, por responsabilidade e missão, a servir todo o território, incluindo zonas de menor densidade populacional e rotas com rentabilidade negativa.Os distribuidores farmacêuticos veem-se igualmente obrigados a absorver o aumento crescente dos custos sem poder refletir esses encargos adicionais no valor do produto que comercializam, como fazem, para preservar a sua viabilidade económica, a maioria das empresas da nossa economia.Esta realidade traduz-se numa pressão constante sobre a saúde económico-financeira do setor, que tem uma margem líquida abaixo de 1%.É por isso que a sustentabilidade da distribuição farmacêutica não pode ser tratada como um tema periférico e de natureza setorial.Pelo contrário, é uma condição determinante para a equidade no acesso ao medicamento. Sem condições económicas adequadas, fragiliza-se um elo essencial do sistema de saúde e compromete-se a capacidade de investimento, inovação e resposta até em cenários de maior exigência.

Garantir a sustentabilidade das empresas que asseguram diariamente o abastecimento dos medicamentos em Portugal é um passo indispensável para proteger a continuidade desta atividade económica de elevado valor social




A evolução do mercado farmacêutico em Portugal evidencia um desalinhamento entre o seu crescimento e a remuneração da distribuição farmacêutica. A evolução do mix de medicamentos em impacto económico concreto vai além da margem absoluta, materializando-se em forte risco financeiro para as empresas e pressão operacional e de serviço.O diagnóstico da sustentabilidade indica que o atual modelo e a estabilidade económica e capacidade de planeamento num setor cuja remuneração permanece dependente de preços desajustados face à evolução dos custos estão em risco.As soluções para este problema são múltiplas, mas passam, em primeiro lugar, por identificar as limitações estruturais do modelo vigente e gerar informação objetiva que suporte um diálogo informado com a tutela sobre a sustentabilidade da cadeia de abastecimento.Garantir a sustentabilidade das empresas que asseguram diariamente o abastecimento dos medicamentos em Portugal é um passo indispensável para proteger a continuidade desta atividade económica de elevado valor social.A distribuição farmacêutica é um exemplo claro de que conciliar serviço público e rentabilidade económica não é uma contradição, antes uma necessidade.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Publicar comentário