Ministra da Cultura francesa diz que lista negra do Canal+ é “desproporcionada”
A ministra da Cultura francesa lamentou esta terça-feira a reacção “desproporcionada” do presidente do Canal+ quando disse que não queria voltar a trabalhar com qualquer dos signatários da carta do movimento Zapper Bolloré. O manifesto divulgado no dia de abertura do Festival de Cinema de Cannes foi assinado por mais de 600 profissionais de cinema, denunciando o controlo daquela rede de canais de televisão privados, da produtora StudioCanal e da cadeia de cinemas UCG pelo milionário Vincent Bolloré e o que consideram ser a cada vez mais notória penetração da sua linha “fascista” no tecido cultural.No domingo, o presidente executivo da rede Canal+, Maxime Saada, num encontro com produtores em Cannes, insurgiu-se contra a carta, que classificou como uma “injustiça para as equipas” do canal, “empenhadas em defender a independência” e a “diversidade” dos filmes que produzem. Para depois dizer: “Não trabalharei mais com as pessoas que assinaram essa petição e não quero que o Canal+ trabalhe mais com elas.” Publicado no diário Libération, o manifesto do cinema incluía nomes como Juliette Binoche, Raymond Depardon, Sepideh Farsi ou Arthur Harari, bem como a cineasta portuguesa Maureen Fazendeiro.Esta terça-feira, no Parlamento, a ministra da Cultura Catherine Pégard foi confrontada com o caso que se agiganta no sector cultural francês: a preocupação com o crescente controlo das cadeias de produção (a StudioCanal é a maior produtora cinematográfica da Europa), financiamento, distribuição e exibição do audiovisual por parte de um milionário ultraconservador que tem aberto portas à extrema-direita.”O papel fundamental desta empresa no cinema confere-lhe uma voz que importa. Lamento que a resposta, no mínimo desproporcional, dada às preocupações muito reais que foram expressas esteja apenas a alimentá-las”, respondeu a ministra, conselheira do Presidente Emmanuel Macron, à deputada da aliança de esquerda França Insubmissa Sarah Legrain.Entretanto, a Associação Francesa de Realizadores, que representa 500 cineastas, disponibilizou-se a actuar como mediadora entre os signatários da carta aberta e o Canal+, de modo a “restaurar a confiança” entre as partes. Cédric Klapisch, presidente da associação, declarou a sua “solidariedade” com os profissionais de cinema contestatários e condenou “qualquer exclusão resultante” das suas tomadas de posição, embora tenha ressalvado que o Canal+ “sempre esteve comprometido com a liberdade e a independência do trabalho criativo” e que quer acreditar que assim continuará a ser.Também esta terça-feira, Martin Adjari, presidente da entidade reguladora das comunicações francesa, a Arcom, considerou, citado pela AFP, que as partes “precisam de conversar entre si, para se acalmarem um pouco após a intensidade das controvérsias”.Já o deputado socialista Arthur Delaporte publicou esta tarde um texto de opinião no diário Le Monde em que defende a aplicação de leis anti-monopólio para evitar poderios como o de Vincent Bolloré, que, escreve, tem um “domínio ideológico” ao qual o Canal+ parecia imune. Até agora.“O debate em torno da liberdade artística e de expressão intensificou-se no nosso país, um mês após a violenta tomada do poder na editora Grasset e os protestos dos [seus] autores. Em jogo, com o Canal+ está, antes de tudo, o futuro da ‘excepção cultural francesa’”, sublinha Delaporte, referindo-se à política nacional de defesa e incentivo ao sector cultural, fortemente apoiado pelo Estado. O deputado socialista diz ainda que também está em risco a “diversidade diante da concentração do poder mediático e económico nas mãos de uma minoria de agentes que lideram abertamente uma tomada hostil do cenário cultural e intelectual”.
Delaporte vê a carta emanada do meio cinematográfico como a expressão de uma “preocupação legítima”. E assinala que a criação de uma espécie de lista negra por parte do Canal+ “reflecte uma lógica perigosa, trumpista” e que integra uma estratégia alargada de “supressão de vozes dissidentes através de violência verbal ou económica”.Dos media aos livros e ao cinemaVincent Bolloré é dono do poderoso grupo de media francês Vivendi (Canal+, StudioCanal, CNews, Europe 1, Journal du Dimanche) e principal accionista do grupo editorial Hachette Livre, que detém várias editoras literárias.Foi precisamente no meio editorial que começou o movimento Zapper Bolloré. Em Abril, o histórico editor da Grasset, Olivier Nora, foi afastado e substituído por um homem da confiança de Bolloré, alegadamente por se ter recusado a apressar a edição do próximo livro do escritor argelino Boualem Sansal.Vários autores franceses assinaram um manifesto de descontentamento quanto ao perigo que corria a “independência editorial” daquela chancela. “Mais uma vez, Vincent Bolloré afirma ‘estou na minha casa e faço o que quero’, desrespeitando aqueles e aquelas que publicam, acompanham, editam, corrigem, produzem, divulgam e distribuem os nossos livros. E desrespeitando todos aqueles e aquelas que nos lêem”, apontaram. Na semana passada, juntaram-se-lhes os autores estrangeiros editados em França pela prestigiada Grasset. O grupo de contestatários envolve agora autores como Leïla Slimani, Han Kang, Sandro Veronesi, Ali Smith ou Colm Tóibin.Noutra chancela do grupo Hachette Livre, a Fayard, foram recentemente publicadas obras de duas das mais proeminentes figuras da extrema-direita francesa, Jordan Bardella, o delfim de Marine Le Pen na União Nacional, e Éric Zemmour.”Se a influência desta ofensiva ideológica no conteúdo dos filmes tem sido até ao momento discreta, não temos ilusões: não continuará a ser assim. A concentração inédita da cadeia de financiamento nas mãos de Vincent Bolloré dá-lhe toda a liberdade para agir quando achar ser o momento certo. Não poderemos dizer que não sabíamos”, alertaram entretanto, na semana passada, os signatários da carta dos profissionais de cinema.A ministra da Cultura disse ainda no Parlamento, citada pela agência AFP e pelo diário francês Le Monde, estar atenta à “emoção e à preocupação expressas na indústria cinematográfica” e também no mundo editorial. Espera que “a razão e o diálogo prevaleçam sobre as ameaças” dos patrões dirigidos por Bolloré, porque as “indústrias culturais não devem ser exploradas para fins políticos”, defendeu. Catherine Pégard tentou, porém, passar adiante: as discussões sobre estes temas são “perigosas”, sublinhou.



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