Pedro Passos Coelho, ou a vida dura de um professor convidado

Cartas ao director

Pedro Passos Coelho, ou a vida dura de um professor convidado

O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho revelou há dias ter um rendimento líquido mensal de cerca de 2000 euros porque, tanto quanto parece, os impostos levam uma fatia significativa do seu rendimento. “O que se entrega ao Estado é uma brutalidade”, queixou-se, segundo relato na comunicação social. Desconta uma taxa de imposto de 42% e, como todos os salários, paga também 11% para a Segurança Social. “Uma coisa avassaladora” – terá dito.Passos Coelho até poderá ter razão em queixar-se de impostos elevados para “rendimentos medianíssimos”. Pena é que, quando foi primeiro-ministro, tivesse agravado os impostos sobre quem vive do seu trabalho, algo de que agora se queixa. Lembram-se do “brutal aumento de impostos” em 2013? Quanto à razão pela qual os mais novos se vão embora (preocupação expressa na ocasião), não será tanto pelos altos impostos, e mais pelos baixos salários.Mesmo na área do ensino superior e da investigação, onde agora Passos Coelho trabalha, a perda tem sido grande. Como mostra o economista Eugénio Rosa, entre 2011 e 2025, a variação do poder de compra, medida a partir da remuneração base média mensal, foi negativa para os docentes do ensino superior universitário (-12,75%) e politécnico (-8,84%), bem como para o pessoal de investigação científica (-27,77%). Estamos todos mais pobres hoje do que em 2011, justamente o ano em que se iniciou a governação do agora professor convidado que manifesta o seu queixume, com toda a razão. Até hoje, foi sempre a empobrecer.Aumentou muito a fuga de cérebros ou, como agora se diz, a perda de talento – na governação de Passos Coelho, um dos países mais pobres da Europa ocidental passou então a exportar em massa jovens qualificados para países mais ricos. Na verdade, era gente que não emigrava, fugia. E, nesse contexto, o ex-primeiro-ministro – hoje um colega docente no ensino superior – não foi brando com as palavras. Quem conhece a “geração sem remuneração (…) onde para ser escravo é preciso estudar”, como cantavam os Deolinda, lembra-se bem. E apetece agora dizer: porque não é mais persistente ou exigente consigo próprio? Porque é tão piegas? Deve ser mais ambicioso e exigente. Se está descontente, porque não abandona agora a sua zona de conforto e procura emprego noutro sítio? Até porque “despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida”.A 8 de maio, a Fenprof divulgou os resultados de um inquérito nacional às condições de trabalho dos docentes convidados no ensino superior público, confirmando a existência de uma situação de precariedade estrutural e generalizada. A figura do professor convidado é utilizada de forma sistemática e abusiva para suprir necessidades permanentes das instituições de ensino superior, configurando situações de “falsos convidados” que permanecem fora da carreira docente apesar de assegurarem uma parte significativa da atividade letiva. Gente que sai todos os dias da sua zona de conforto, pois tem horários sobrecarregados, muitos não recebendo subsídio de alimentação, com contratos que não cobrem os períodos de férias e mais expostos a situações de abuso ou assédio.

Ninguém guarda mágoa nem rancor. Por isso, estimado colega Pedro Passos Coelho, ajude a dar força à luta da Fenprof e dos seus sindicatos, que é também a sua, pelo aumento geral dos salários, permitindo recuperar o poder de compra perdido desde 2011




Também porque vivem em condições de subfinanciamento e subinvestimento crónicos, as instituições de ensino superior recorrem a esta figura e são poucas as oportunidades de integração estável. E isso seria fundamental para que estes colegas pudessem ter um rendimento mais condigno. Ainda assim, metade dos convidados aufere até 1000€ líquidos mensais, metade do que leva para casa o nosso ex-primeiro-ministro, hoje professor convidado associado no ISCSP, depois de, em 2018, ter regressado à sua alma mater e ter entrado no ISCSP como professor catedrático convidado. Já imaginaram o que seria se fossem tão piegas quanto ele?Mas ninguém guarda mágoa nem rancor. Por isso, estimado colega Pedro Passos Coelho, ajude a dar força à luta da Fenprof e dos seus sindicatos, que é também a sua, pelo aumento geral dos salários, permitindo recuperar o poder de compra perdido desde 2011; pela abertura regular de concursos e pela integração nos quadros dos docentes que respondem a necessidades permanentes, como pode ser o seu caso. Se estiver ao lado da Fenprof e dos seus sindicatos na luta pela valorização das carreiras do ensino superior e o aumento de salários, bem como no combate à precariedade neste sector, talvez tenha menos motivos de queixa.Os autores escrevem segundo o acordo ortográfico de 1990

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