"Em Marrocos não existe meio termo, ou existe o bestial ou a besta"

"Em Marrocos não existe meio termo, ou existe o bestial ou a besta"

"Em Marrocos não existe meio termo, ou existe o bestial ou a besta"


É já no próximo dia 17 de maio, no domingo, que a Liga dos Campeões africanos vai ter a primeira mão de uma inédita final entre dois treinadores portugueses. Miguel Cardoso e Alexandre Santos qualificaram, respetivamente, o Mamelodi Sundowns e o FAR Rabat para a final desta competição continental.

O clube marroquino, vencedor em 1985 na primeira edição desta competição, chegou de novo a uma final quase 40 anos depois, após ter eliminado na ronda anterior os compatriotas do Berkane. A nível interno, o FAR Rabat segue no segundo lugar do campeonato, mas ainda com hipóteses de vir a ser campeão.
Em entrevista exclusiva concedida ao Desporto ao Minuto, Alexandre Santos lançou a final, realçando a transformação que o seu clube sobre nos últimos anos, não escondendo o orgulho de poder estar na disputa por este título continental.
“A sensação de chegar a uma final é sempre de grande orgulho e de grande satisfação, pessoal e coletiva, por tudo aquilo que exige a uma equipa durante todo o percurso, seja de que competição for, para chegar a uma final. Esta ainda se torna mais especial porque estamos a falar da final da Liga dos Campeões, a mais importante da continente africano. Foi uma competição em que começámos com uma derrota e um empate e todos os comentários eram muito negativos relativamente à nossa prestação nesta Champions, que apontavam como sendo curta. Na verdade, o grupo demonstrou ser muito forte, competente e unido em prol de, jogo a jogo, ir passando as dificuldades. Nos momentos decisivos, a eliminar, conseguimos ser muito fortes. É o sentir que o grupo acreditou no trabalho que propusemos e ganhou confiança, conseguindo chegar a um momento único para todos eles. É algo extraordinário e histórico no clube”, atirou o técnico, de 49 anos, que recordou as dificuldades que tem enfrentado em Marrocos por conta das críticas.
“Não existe meio termo, ou existe o bestial ou a besta. Não existe nada entre uma coisa e outra. Antes de chegarmos a estes níveis e atingirmos estes grandes feitos de eliminar o Pyramids, o atual vencedor da Champions, e o Berkane, não se considerava, pelo menos do ponto de vista da opinião dos adeptos, que fôssemos aquilo que eles gostaria de ter como treinadores. Em Marrocos quase todas as equipas já mudaram de treinadores e algumas já mais do que duas vezes. Isso é muito típico por aqui. É sempre difícil caracterizar o que é que é um bom trabalho para os marroquinos. Para eles, a única coisa que conta é ganhar”, afiançou, destacando a importância da presença nesta final pela história do clube.
“Mesmo estando na final, temos a noção de que ganhando será muito bom, mas não ganhando veremos o que vai ser. Está a ser um grande trabalho, uma grande época e um momento histórico. Marcámos a história do clube. O FAR Rabat já esteve numa final da Liga dos Campeões africana, que foi a primeira de todas há quase 40 anos. Só podemos considerar que, dentro daquilo que são os nossos recursos, os jogadores e efetivo que temos, estamos a fazer um grande trabalho, em conjunto com todo o staff e todas as pessoas”, reiterou Alexandre Santos.
Treinador português leva mais de 40 jogos no emblema marroquino© FAR Rabat
Alexandre Santos reconheceu ainda que existe alguma pressão para tentar repetir o título continental ganho nos anos 80, sobretudo pelo longo jejum do FAR Rabat nestas fases decisivas da Liga dos Campeões africanos.
“A pressão é sempre sentida, seja ela num jogo do campeonato ou da Taça. Tudo o que não seja vitória é alvo de uma grande crítica. Tudo é vivido dessa forma porque é um clube grande. Este é um jogo especial, porque as pessoas estão cheias de expectativas de que poderá ser possível reeditar a única vitória que tiveram na primeira edição desta Liga dos Campeões africana. Estar 40 anos sem ganhar nenhuma Champions e, principalmente, sem nunca terem estado nestes níveis… Nunca mais estiveram numa meia-final. Além dessa conquista de há quase 40 anos, os primeiros quartos de final em que estiveram foi no ano passado. Este ano reeditou-se isso e conseguimos chegar à final. Não é uma equipa que está habituada a estes momentos de disputa da Champions africana. Por isso mesmo, acho que se cria ainda mais expectativa de que poderá ser o ano do FAR Rabat. Deus queira que consigamos repetir esse feito, porque seria algo marcante para o clube, para os jogadores, para os adeptos e para o staff”, recordou o timoneiro português.
Do outro lado estará o amigo Miguel Cardoso. Alexandre Santos disse esperar um encontro difícil, que vai colocar a nu a qualidade do treinador português fora de portas.
“As curiosidades do futebol são mesmo estas. Vou defrontar um amigo, um colega de curso e de trabalho. Somos da mesma geração. Tivemos um caminho por vários países e experiências no estrangeiro e agora vamos encontrar-nos numa grande final. É um prazer enorme ter do outro lado uma pessoa como o Miguel. Sei que vai ser bem difícil. Vamos ter pela frente uma equipa que é muito bem treinada, com grandes recursos e grandes experiências nestes níveis competitivos de finais da Liga dos Campeões. Vai ganhar um treinador português e o único treinador português que ganhou uma Liga dos Campeões africana foi o grandíssimo Manuel José, que ganhou várias edições pelo Al-Ahly. Agora vai haver um segundo treinador português e isso é a demonstração de qualidade dos nossos técnicos e daquilo que temos em Portugal e que vai demonstrado o seu trabalho pelo mundo fora”, vincou Alexandre Santos.
Questionado sobre se uma eventual vitória continental poderá abrir as portas do futebol da Europa, o treinador português preferiu manter alguma cautela.
“Primeiro quero disputar o título. Foi uma grande conquista chegar a este nível e a uma final. Face ao quadro recente dos últimos 20 anos do FAR Rabat, chegar à final da Liga dos Campeões africanos é algo marcante. Ganhar seria ouro sobre azul e vamos fazer tudo para que seja possível conquistarmos este troféu, que é o mais importante de África. Se ele me abre portas para a Europa ou para outro sítio… o que mais interessa é ganhar o título. Depois, o futuro a Deus pertence e vamos ver onde será. Poderá haver várias soluções: a da continuidade, a de outro tipo de clube, a daquilo que for mais desafiante e, ao mesmo tempo, for mais ao encontro dos meus objetivos. Existe um impacto grande com a conquista de um título desta dimensão, mas isso não significa que, por natureza, as portas de certo tipo de contexto se possam abrir de uma forma imediata. Vamos esperar. Primeiro vamos fazer tudo para ganhar e depois esperar que as coisas apareçam naturalmente e surja um bom passo seguinte, seja onde ele for”, finalizou.
A primeira mão da final da Liga dos Campeões africanos vai ter lugar a 17 de maio, na casa do Mamelodi Sundowns (15 horas), com a segunda mão a ter lugar no recinto do FAR Rabat, em Marrocos, a 24 de maio (20 horas).

Em entrevista exclusiva concedida ao Desporto ao Minuto, Miguel Cardoso, treinador dos sul-africanos do Mamelodi Sundowns, lançou a final da Liga dos Campeões africana contra o compatriota Alexandre Santos. Primeira mão é já no domingo.
Rodrigo Querido | 07:42 – 14/05/2026

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